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Clube da Sombra
Cia Teatro Lumbra
Caixa Preta
Cena do provocativo Sacy Pererê
 
Conceito radical - luzes atacam as retinas do público
 
Montagem da Cia Lumbra é puro experimentalismo
 
Sacy é uma lenda assombrada e não um personagem de livros
 
O medo é o que sustenta o Sacy com "y"
A Cia Teatro Lumbra teve a oportunidade de participar com o seu consagrado, e por vezes polêmico, espetáculo de teatro de sombras "Sacy Pererê - A Lenda da Meia-Noite" do FIT 2008 de São José do Rio Preto/SP. As duas apresentações com lotação esgotada ocorreram nos dias 12 e 13 de julho, no teatro do colégio Santo André. O público participou ativamente da apresentação e na sequência o Sr. Alexandre Mate nos brindou com uma crítica publicada no informativo e no website do festival.

A equipe da Cia Teatro Lumbra agradece a toda equipe do FIT 2008 pela atenção durante a nossa estada.


Crítica – FIT 2008 – São José do Rio Preto/SP

Por entre as sombras de um tal Sacy Pererê, em muito mais que uma meia-noite de lua cheia

Talvez, por conta de certos indícios documentais, seja possível precisar a origem do chamado teatro de sombras. Várias são as pistas e hipóteses, sobretudo visuais, acerca desta manifestação ao longo da história. Entretanto, a não ser que se volte para a origem da humanidade, é difícil apontar o momento em que o homem transformou sua fascinação de obra estática em obra-movimento. Se nos rituais de caça do homem primitivo, os animais desenhados nas paredes das cavernas eram imóveis, o simples tremular da chama das fogueiras, interposto entre a visão humana e o objeto, foi tudo de que necessitou esse homem para a ilusão ótica do movimento, e cujo auge foi conquistado pela linguagem cinematográfica. Os animais desenhados, por um fenômeno ótico-imaginativo “ganhavam vida” e relacionavam-se com o homem. Relação mediada pela capacidade imaginativa e premida tanto por necessidades táticas de sobrevivência (dominar os animais e caçá-los) como, e pode-se afirmar, por necessidades de transcendência e trânsito com o mistério (louvar e prestar tributos ao desconhecido). As formas ritualísticas: religiosas, estéticas, gastronômicas, amorosas... nos fascinam e são fundamentais a uma vida mais equilibrada, então: por que não seriam para os primeiros homens também?!

Aliás, bom lembrar, principalmente por aqueles que se deixam levar pelos chamados mistérios do mundo, como as crianças e os adultos (ainda não contaminados por uma vida totalmente sem graça), que a imaginação é o principal “músculo” do homem. Muitos gregos da Antigüidade, sobretudo alguns filósofos, diziam que este músculo era fundamental para a passagem da phisis (o natural) para a thesis (o criado). Por intermédio desta capacidade, não é de se estranhar a fascinação humana pelas cortinas, véus, panos, muros... como anteparos que facilitam ou dificultam o acesso ao humano e aos objetos materiais ou mesmo imateriais. Saber o que existe do outro lado, como é, concretamente, a coisa que se anuncia, dependendo do que se trate, pode levar do êxtase à enervação; da ansiedade à depressão; da mansidão à enervação. A dança do ventre, da tradição árabe, representa apenas um exemplo do fascínio humano pelo entre-quase-tudo-visto.

Imaginar o que existe do outro lado pode ser uma aventura fantástica. O homem é mesmo um curioso nato. Além de fingidores temos a potência dos (super homens) advinhadores, também. Esteticamente, a criação e o contato com as obras que ressignificam objetos e sentimentos pedem apenas uma entrega de abstração total, ou algo próximo disso. A totalidade de nós, tomada por um estado de soberania da percepção, dependendo dos estímulos, se deixa levar pelo captado pela visão. Se deixa captar de modo intrigado, fascinado e, tantas vezes, aquietado na aparência.

De modo bastante reduzido, o teatro de sombras compreende uma manifestação teatral em que Sombristas (manipuladores do teatro de sombra) dão vida, pelo rebatimento de luz em uma superfície plana e clara, a personagens, paisagens e objetos que, juntos ou separados, contam qualquer história. Sherazade diria: 1001 histórias, mas cujas exigências exigiriam a criação de uma narrativa sustentada por figuras recortadas e a destreza na manipulação dessas personagens, em relação.

A Cia. de Teatro Lumbra (de Animação), de Porto Alegre, fundada em 2000 por Alexandre Fávero. Segundo seu fundador, além da pesquisa com a linguagem e técnica do teatro de animação (ou de formas animadas como falaria a mestra Ana Maria Amaral), a Cia. cria seus espetáculos adotando temas ligados ao folclore brasileiro. Nesses tempos em que vivemos, dominados por tantos Homens Aranha, Hulks, Shreks, Harry Potters... é bom saber que há alguém (e agrupado) que ainda se motiva por assuntos tão mais perto e mesmo necessários a nós... Por aí, e de saída, agrupada à competência de seu trabalho, os integrantes da Lumbra já têm um destacado mérito. Em momento muito feliz, o grande autor russo Leon Tolstoi afirmou algo próximo a: “Canta a tua aldeia e cantarás o mundo.” Continuem, pois, “lembreros”, a buscar esse canto universalista.

Entretanto, esse reconhecido mérito apresentado de saída se problematiza pela narrativa adotada pela Cia. Isto é, se para a totalidade de nós a fábula que conhecemos apresenta um Sacy Pererê, que é endiabrado, mas que ajuda a descobrir caminhos, em Sacy Pererê – a lenda da meia-noite a personagem que nos é apresentada parece ser dominada por traços maus. Contribuem para isso: a silhueta, a música-tema de forte impacto, a risada perversa... Se, como afirmou Alexandre Fávero logo após a apresentação do espetáculo, em 12 de julho de 2008, no Teatro Santo André, o texto ter se fundamentado a partir de versão compilada por Monteiro Lobato, porque não mesclar humanidade e suavidade, ainda que matreira, à personagem infantil e que tanto fascina a criançada? Por que na hora do primeiro encontro entre o Aventureiro e o Sacy, de bonito efeito cênico: pelo jogo de luz e flutuação da tela, não se mesclar na luta, por entre os gemidos, alguns risos gostosos e matreiros?

O belo espetáculo, de acordo com a tradição do teatro de sombra apresenta as personagens projetadas, mas Alexandre Fávero trouxe o Aventureiro também corporificado para os olhos dos espectadores. Nesse caso, quando no palco, a luz de uma simples lamparina (ou lampião) é suficiente para emanar da personagem sua própria sombra na tela. Esta quebra da tradição sombrística é genial porque mostra o Aventureiro, concretiza a metáfora: medo da própria sombra. Talvez o Saci pudesse aparecer neste momento também, evocado por intermédio de algum recurso de projeção. Do mesmo modo, ainda, quando o Aventureiro vem à platéia, e algumas crianças próximas perguntaram aos pais o que ele procurava, talvez se devesse acrescentar algum índice visual preso ao corpo do Aventureiro, como o capuz, por exemplo.

A trilha sonora, de Gustavo Finkler, é composta por músicas cujas funções épico-alegóricas apresentam os dados e informações de que se tem necessidade para entender a fábula. Não combina, entretanto, as músicas apresentadas enquanto o público entra. Muitos defendem a tese, na qual acredito, que o espetáculo já começa quando o público adentra ao espaço de representação.

A cenografia, em estrutura de taquara, apresenta uma tela trapezoidal com outras duas telinhas menores, uma de cada lado, que inverte o trapézio em relação àquela principal, encimada por uma carcaça de cabeça de boi: trata-se de uma bela escultura. Entretanto, como assisti ao espetáculo mais deslocado do centro, muito se vê dos bastidores... Se esse for também um dos alvos dos criadores tudo bem; se não for, é preciso repensar a “escultura” para que os sombristas não sejam mostrados em processo.

Por último, e trata-se de uma apreensão subjetiva mesmo, penso haver muita citação religiosa. Pais, parentela, escolas e outras instituições fazem isso com muita competência.

Tais palpites são aqui apresentados tanto pelo respeito à obra e aos seus criadores como pelo fato de acreditar que uma reflexão crítica pode, também, pressupor um exercício de interlocução, cujo começo pode ser marcado, mas não seus desdobramentos. De outra forma, ainda, como o Festival Internacional de Teatro de São José de Rio Preto adota como mote os mil e um cantos e contracantos da textura, as intervenções aqui apresentadas buscaram guiar-se pelo rastilho de ilusão provocado pelas sombras das imagens projetadas e contidas por entre a visualidade das palavras.

Alexandre Mate
É ator, diretor e professor de História do Teatro e outras disciplinas no Instituto de Artes da Unesp e da desde Escola Livre de Teatro de Santo André. Mestre em Teatro pelo Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP e Doutorando em História pela Unesp e USP Experiência de ensino no magistério superior
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