SOMBRATERAPIA: Plantando sombras, colhendo luze -Cap
Fabiana Bigarella - Psicóloga e Arteterapeuta
Editado em 10.06.2010
Este artigo pretende apresentar a monografia da psicóloga Fabiana Bigarella, integrante da Cia Teatro Lumbra e uma das coordenadoras da produtora Clube da Sombra Ltda.
A pesquisa e a monografia foram produzidas durante seu curso de conclusão como especialista em arteterapia no Centro de Estudos em Arteterapia, psicologia e educação - CENTRARTE - Porto Alegre/Rio Grande do Sul, sob a orientação da Ms Magda Martins Mariante no ano de 2009.
O trabalho Sombraterapia - “Plantando sombras, Colhendo luzes”: Vivência com teatro de sombras - Investigação teórica, prática, intensiva e reflexiva sobre sensibilização dos sentidos
é uma pesquisa ampla e será publicada em capítulos.
Neste primeiro capítulo será apresentado um resumo do trabalho e uma primeira abordagem entitulada SOMBRA. No final tem o sumário com os próximos temas abordados.
Perguntas e comentários podem ser enviados diretamente para a autora pelo endereço fabiana@clubedasombra.com.br ou pela página de contato do site.
Boa leitura!
CAPÍTULO 1
“O ser humano não se torna iluminado ao imaginar figuras de luz, mas ao conscientizar-se da escuridão”.
C.G.JUNG
RESUMO
A pesquisa parte do conceito de Sombra e Arteterapia, para estruturar o problema a ser pesquisado: Sombraterapia – vivência com a sombra, utilizando os recursos do teatro de sombras e da arteterapia na sensibilização dos sentidos.
O trabalho utiliza como estratégia de abordagem a descrição da cultura*e dos conceitos de SOMBRA no teatro, na psicologia e na filosofia, através da revisão bibliográfica e da utilização do relato e da produção e criação artística dos participantes das Vivências com o Teatro de Sombras.
Os dados e as informações da investigação foram colhidos a partir do depoimento dos participantes, sendo utilizado para isso o registro das atividades em áudio e vídeo, do preenchimento das fichas de inscrição e avaliação e de anotações pessoais realizadas durante as Vivências. Também serviram como referência o registro através de fotografias, filmagens e depoimentos das pessoas que assistiram aos espetáculos e demonstração de teatro de sombras;
Palavras-chave: sombra, teatro de sombras, arteterapia, sombraterapia.
*Ato, efeito ou modo de cultivar; cultivo;
*A parte ou o aspecto da vida coletiva, relacionados à produção e transmissão de conhecimentos, à criação intelectual e artística, etc.
*Atividade e desenvolvimento intelectuais de um indivíduo; saber, ilustração, instrução;
INTRODUÇÃO
“... a sombra permite o reconhecimento da pessoa: a sombra é a forma visível da alma”.
Roberto Casati
Este trabalho aborda a relação entre Teatro de Sombras e Arteterapia, tendo como base de discussão e reflexão a possibilidade da utilização de um recurso do teatro de animação, que utiliza a linguagem da sombra através da sua dimensão física e real para a sua criação artística e o recurso psicoterapêutico, que utiliza a sombra através da sua dimensão psicológica e simbólica na criação de um processo psicoterapêutico que visa o desenvolvimento do potencial humano, através da busca do autoconhecimento e do desenvolvimento pessoal e coletivo.
Os temas desenvolvidos discorrem a respeito do conceito, histórico e origem do Teatro de Sombras e da Arteterapia, buscando algumas ligações entre o entendimento de sombra para a Psicologia, a Filosofia, a Antropologia, a Religião, a Arte, a Física. Utilizando os recursos do Teatro de Sombras e da Arteterapia como ferramentas para a criação e desenvolvimento da Sombraterapia, processo psicoterapêutico que tem a sombra como o centro da sua investigação e pesquisa, sendo utilizada como instrumento de criação e autoconhecimento individual e de grupo.
A descrição do processo de desenvolvimento e realização da Vivência com Teatro de Sombras, atividade esta que originou e despertou o interesse e o desejo pela pesquisa das inter-relações entre o mundo físico, que pode ser observado pelos sentidos, que é real, e o mundo psíquico, com seus conteúdos e processos que estão na base da experiência subjetiva e do comportamento humano.
Pensar como podemos criar um processo onde na prática a sombra, como conceito psicológico e filosófico, possa ser trabalhada não só como algo que faz parte da nossa psique, não só como algo que possa ser falado e trabalhado através da palavra, mas também como algo que possa ser experiênciado através da vivência com a sombra individual e coletiva, com a possibilidade que ela se revele como algo real, que pode ser observado e percebido pelos nossos sentidos como uma materialização do nosso inconsciente.
As referências, observações e dados apresentados nesse trabalho se referem às Vivências com Teatro de Sombras realizadas entre os anos de 2004 a 2008. As 35 edições da Vivência foram realizadas em todas as regiões do Brasil, abarcando 30 cidades, 14 estados, envolvendo o público de 445 pessoas em 300 horas de sensibilização dos sentidos.
SKIA (desesperada): Encerrada numa caverna. Usada como exemplo de conhecimento inferior. Apontada pelos séculos como espantalho da filosofia. Insisto: eu o acompanho o dia inteiro, do nascer ao por do sol, e você não para de me pisotear. Deveria me pedir desculpas.
PLATÃO: Mas que impertinência! Você também viu que, além de ser efêmera e obscura, você contém um ninho de contradições, cria confusão e espanto e deixa perplexos adultos e crianças. Parece-me que sua situação só piorou.
SKIA: Mas é exatamente esse o problema! Quero mostrar a você que, embora cause espanto e apesar dos humanos não saberem direito o que pensar de mim, posso ser útil a todos – inclusive aos cientistas e a filósofos como você.
Platão
SOMBRA
“ao longo da história, a sombra tem surgido (através da imaginação humana) como um monstro, um dragão, um Frankstein, uma baleia branca, um extraterrestre ou um homem tão vil que não podemos nos espelhar nele – ele está tão distante de nós quanto uma górgoda. Revelar o lado escuro da natureza humana tem sido, então um dos propósitos básicos da arte e da literatura. (ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah,1991,p.19)
A palavra SOMBRA possui diferentes conceitos, significados e percepções, dentro da Psicologia, Filosofia, Arte, Religião, Física e nas diversas culturas, religiões e sociedades em que esse conceito está inserido. De acordo ZWEIG e ABRAMS-1991, p.20- “O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia em nossas próprias células... A besta em nós está viva, muito viva – só que a maior parte do tempo encarcerada”. Logo, podemos perceber que em todos os meios está associada a pensamentos, conceitos e pré-conceitos que estão relacionados a algo que não conhecemos bem, que nos remete a situações e sensações desagradáveis e se vincula a atitudes e sentimentos pouco nobres para os seres humanos, mas que acompanha a humanidade desde o seu surgimento.
Segundo o dicionário Houaiss, sombra é um substantivo feminino que pode significar entre outras coisas:
“obscuridade produzida pela interceptação dos raios luminosos por um corpo opaco;
espaço menos iluminado, onde não bate luz direta; escuro, obscuridade
ausência de luz; escuridão
ausência de conhecimentos, cultura, instrução, liberdade, justiça; obscurantismo, ignorância, despotismo
algo que obscurece ou mancha a biografia ou a reputação de alguém; mácula, nódoa, senão
forma escura produzida na superfície de um objeto pela interposição de outro objeto entre aquele e uma fonte de luz
coisa que parece impalpável, imaterial; vulto
espírito desencarnado; alma, fantasma
o que entristece, preocupa, amedronta”
“Geralmente, na psicologia junguiana definimos sombra como a personificação de certos aspectos inconscientes da personalidade que poderiam ser acrescentados ao complexo do ego, mas que, por várias razões, não o são. Poderíamos, portanto dizer que a sombra é a parte não vivida e reprimida da estrutura do ego, mas isso é só parcialmente verdadeiro.” (Von Franz, Marie-Louise, 2002, p.11).
Como podemos perceber a idéia de SOMBRA está diretamente relacionada a algo misterioso, que não pode ser claramente percebido pelos nossos sentidos. É alguma coisa que não possui dimensão definida, que temos dificuldade em tocar, que não emite sons, nem elimina odores e quanto menos nos desperta a possibilidade de ter algum gosto. Ou seja, é algo que não é captado facilmente pelos nossos sentidos, portanto, temos dificuldade em compreender e aceitar a sua presença e importância em nossas vidas.
Origem
“Podemos imaginar o assombro do homem pré-histórico quando, com o fim de aquecer-se na escuridão da noite invernal, aproximou as mãos da fogueira e descobriu sua sombra sobre a parede da caverna.” (Badiou, Marise, 2000, p1).
Acredita-se que esse seria o cenário da primeira aparição de uma sombra diante dos olhos humanos, ou pelos menos da percepção de uma sombra com maior definição, e não somente aquela visão rápida e sorrateira a deslizar pela noite a fora.
Podemos dizer que a sombra surge junto com a humanidade, homens e sombra sempre andaram e andam juntos. A sombra não existe sem a presença de um objeto que a projete, um objeto em contato com a luz não consegue ocultar a sua sombra. A grande questão é: quando percebemos nossa sombra? Será quanto tempo o homem pré-histórico levou para perceber a sua sombra? E o homem contemporâneo já percebeu a sua sombra?
Temos a sensação de que o assombro que os homens pré-históricos sentiram quando descobriram a sua sombra sobre a parede da caverna numa noite fria e escura é a mesma sensação de assombro que percebemos nos olhos, que ouvimos no ar, que sentimos nos movimentos dos homens contemporâneos que descobrem as suas sombras projetadas em cavernas modernas aquecidas e intencionalmente enegrecidas. Muitas Eras se passaram, muitas luzes e sombras surgiram no pensamento humano, mas a essência do encantamento da descoberta da sua “réplica intangível” continua assombrando o pensamento e o comportamento humano.
SUMÁRIO
SOMBRA
Origem
Associações
Rejeição
Encontro/Revelação
Transformação TEATRO DE SOMBRAS
Origem
Histórico
Teatro de Sombras no Brasil ARTETERAPIA
Arteterapia
Arteterapia como processo terapêutico
Contextualização histórica da arteterapia SOMBRATERAPIA
Sombraterapia
Sombra individual
Sombra coletiva
Vivência com Sombras JUSTIFICATIVA OBJETIVOS
Geral
Específicos METODOLOGIA
Descrição da População
Etapas da Vivência
Descrição da Instituição
Considerações Éticas: APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Dinâmica da Vivência CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS