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Evolução degeneradaDesde sempre a vida sugere vencer um
desafio. A morte, a si mesmo, o tempo, o espaço, a forma, o conteúdo, o preço, o corpo ou o medo de
todos eles juntos. Tanto faz onde acontece, quem está no páreo, qual a posição do adversário no
ranking da competição ou o prêmio para o vencedor. Isso não é descaso. É uma evidência das mais
claras na nossa biologia terrena. Condição que implica na evolução de tudo e exige necessariamente
algum esforço na manutenção da vida. Custe o que custar.Segundo a teoria evolutiva - se o ambiente
não é favorável, os conflitos naturais presentes obrigam novas adaptações e mutações para garantir a
vida e o fortalecimento evolutivo. Na pele, sob o foco do microscópio ou nos mapas gerados pelos
satélites esses episódios são micros e macros guerras que se alternam e surgem em terrenos com os
mais variados protagonistas. Se ao contrário: - ele é confortável, há poucas necessidades e menos
exigências, ocorre uma grande letargia evolutiva. Acredito que a arte e seu mercado oferecem um
território de evolução dinâmica de interessantes episódios competitivos. Isso é próprio da nossa
categoria homo e figura na ponta da nossa pequena participação na linha cronológica da existência.
Não sei se isso diz alguma coisa, mas ajuda a compreender que as suas funções evolutivas são de um
custo/benefício curioso, afinal a arte pressupõe um melhor aproveitamento das nossas capacidades
mentais, evita uma série de neuroses e outras doenças freudianas que por vezes pode ter até um
efeito laxante antes de uma estréia pública ou uma entrada no palco repentina.A arte tem seus
poderes e são difíceis de explicar. Uma obra de arte pode oferecer a adrenalina do esporte e exigir
um preparo de atleta para quem se mete nessa atividade. Também chega à descabida capacidade de
servir como fuga da realidade ou ainda como uma ponte para alcançar estados místicos, quase
religiosos. Não acredito que a arte seja terapêutica, mas sim que possui uma capacidade latente de
matar, por isso tende a salvar também. Depende de qual caminho se escolhe e quantos atalhos surgem
durante a caminhada. Atalhos e caminhos são diferentes. Basta ver que o caminho que leva a um
sucesso pessoal é geralmente longo. Um artista dedicado demora mais de 10 anos para se acomodar no
seu nicho e sentir-se aceito pelo que faz. Em outros casos, mais abreviados, e por veredas mais
oportunistas, o mesmo talento pode levar o artista a cometer dezena de crimes pela arte. Quase
sempre isso está relacionado aos valores subjetivos ou subversivos do dinheiro e da fama, mas não
deixam de ter sua dose de criatividade e inspiração. Basta ligar o rádio ou a televisão para
ouvirmos letras descabidas e imagens impactantes que fazem sucesso meteórico na interpretação de
padres marqueteiros, mulheres gostosas com nomes de fruta, loiras com atitudes de crianças
retardadas, grupos de jovens marombados e de malemolência vertiginosa. Curioso também é lermos nos
periódicos e revistas os casos de roubos cinematográficos aos museus internacionais, falsificações
de altíssima qualidade, propinas e lavagem de milhões de dólares e uma gama ainda desconhecida de
possibilidades artísticas e culturais para atalhar o percurso e chegar provavelmente no ponto de
partida. Cada um sabe o seu ou ainda vai descobrir.Genética defasadaMinha ligação com o
caminho artístico é atávica. Vem dos pequenos estímulos da infância, da memória familiar, do
inconformismo com o conteúdo escolar, da herança do avô funileiro, do sangue dos colonizadores
italianos e da insatisfação com o futuro acadêmico. Claro que na prática, a parte lúdica veio dos
pais, tios e dos bons professores que deram um empurrãozinho nas horas mais duvidosas. Tive o
privilégio de brincar na rua, andar sozinho pelo mato, viajar nas férias, ganhar uma máquina
fotográfica aos sete anos de idade, assistir filmes nos cinemas de calçada, subir em árvore,
colecionar todo o tipo de coisa, andar de bicicleta, desenhar desde muito cedo e matar passarinho
sem me preocupar com a extinção das espécies. Essa foi a formação fundamental. A prova vocacional.
Não sei se foi isso, mas sou dos pouquíssimos artistas da família e por isso tento achar uma
impossível explicação lógica para estar nessa condição. Artista, brasileiro e insatisfeito. Talvez
seja uma aberração da evolução. Uma batata fora do padrão que não será frita e embalada. Sem deixar
de especular, arrisco em dizer filosoficamente que: - como homem primitivo que sou, vivo em um
ambiente hostil e desconfortável, à beira da extinção da minha condição de artesão e isso me
condiciona a criar artisticamente uma defesa extremamente rigorosa, que mantenha uma baixa
freqüência de elementos nocivos e que promova uma adaptação cada vez mais precisa ao ambiente que
escolhi para viver. Uma capacidade movida ao jeitinho brasileiro de aplicar soluções e enfrentar
problemas novos. Evidentemente que minhas principais adaptações não são mais biológicas e têm sido
cada vez mais relacionadas à tecnologia moderna e ao uso do intelecto. O resultado é uma mudança
disgênica, ou seja: o afrouxamento da seleção natural. O consolo é esse texto, que bem ou mal me
permite uma defesa momentânea e uma sobrevida no curso desse projeto, de vida, de carreira, de
doutrina, de política e de destino. Precisamente complicado e cada vez mais profundo.Concordo que
intelectualizar a arte não é necessariamente estar criando ela e muito menos fazendo, mas escrevo
isso por determinação de outras exigências do meio. Afinal, permanecer artista e pensar a arte é tão
difícil quanto começar na carreira, ser original, criativo e produtivo. Basta ver que político
nenhum coloca em sua plataforma a cultura como ação necessária durante seu suposto mandato. Acredito
nessa prática teimosa de pensar a arte e no registro da escrita como legado. O registro das idéias.
Que não é literatura, mas é uma forma complicada de não deixar de ser alguém criativo e manter a
dedicação na busca pela intensidade maior de provocação, de peleja e de superação. Coisa própria dos
que buscam esse fenômeno da vivência na arte como testemunha ou fazem parte dessa insanidade como
atores que a praticam. Nesse exercício de pensar, me observo e diante da criação, quase sempre me
impressiono pelo caráter de coragem ou de falta de senso do autor, muitas vezes necessário para que
a sua experiência criativa continue a existir e originar o mistério da arte enquanto manifestação
humana. Aqui cabe uma distinção vital para a minha capacidade de consumidor e praticante. Uma
diferenciação ungida mais pelo sensorial do que pela crítica da razão. Um discernimento evolutivo
daquela arte acomodada e amebóide que o espectador digere numa espécie de fagocitose e a carnificina
sanguinolenta da arte que mete medo, feita por tubarões oceânicos prontos a estraçalhar seus
admiradores. Na arte devemos ser vítimas de nós mesmos. Medo, mistério, crueldade, contaminação,
pesadelo e superação estão além da crítica ou do bom senso. Eis o drama milagroso da arte que
entendo como transformadora e necessária. Nem sempre é possível, mas me faz muito bem em qualquer
situação.Sacrifico expiatórioDe todas as experiências que tenho participado a que mais se
aproxima dessa arte predadora com seu autor é a performática EXPLUM. Um processo quase masoquista de
pensar, pôr em prática e avaliar. Propriedades formais que a experiência científica trata em suas
variantes e que cada vez mais se dilui e desaparece no cotidiano capitalista do artista brasileiro.
Duvidar, degradar e sofrer também ordena e explica o mesmo processo de forma mais dramática e
expiatória onde a salvação dos pecados é um mistério. Considero isso uma apologia sinistra do
processo que coordeno em Porto Alegre/RS, na Cia Teatro Lumbra e que teve como protagonista o colega
e artista plástico Roger Mothcy. Essa EXPeriência LUMinosa nasceu prematura, mal gestada, quase
amaldiçoada, sem nome, negligenciada e por muito pouco abortada se não fosse a força desafiadora da
situação darwiniana criada pelo meio em que transitamos no mundo da arte. É antagônico por natureza
e por isso justifica o seu registro, pois foram as necessidades do mercado artístico que fizeram com
que eu e a equipe abandonássemos o colega Roger no escuro do aprendizado com a sombra logo no início
da sua jornada quixotesca no mundo do teatro gaúcho. O colega sempre soube que era assim e assim
entrou no elenco da companhia para atuar como ator manipulador e aspirante a sombrista nos trabalhos
de repertório que mantemos com muito custo e esforço, econômico, físico e emocional. A coisa toda se
deu por motivos políticos para cumprirmos com o contrato firmado com a prefeitura de Porto Alegre
onde a companhia deveria oferecer uma atividade artística para o público como contrapartida à
cedência de uma sala para o trabalho de pesquisa continuada. A companhia participava de outros
projetos culturais importantes e nesta ocasião estava com a agenda ocupada, viajando em turnê pelo
Brasil. Essa tarefa de manter o contrato de pé e realizar uma ação cultural na nossa cidade sede
ficou à cargo do novato Roger. O contrato foi firmado em 2005 e o imbróglio com a agenda e
atividades paralelas iniciou em 2007. Mesmo à distância combinamos estrategicamente, por telefone e
correio eletrônico, o que poderia ser feito. Meu espírito estava lá, na sala escura do laboratório
da Usina do Gasômetro realizando essa empreitada sem sentido, sem bilheteria, sem roteiro, sem
cenário e com um público indefinido, mas meu corpo permanecia no norte do país, à aproximadamente
4.500 km de distância em um mega projeto itinerante envolvendo grandes produtoras, patrocinadores,
várias companhias teatrais e um público de milhares de espectadores. A ação de Porto Alegre foi
divulgada na mídia através de uma notinha de canto de página. O artista tinha a obrigação de juntar
seus amuletos de proteção e enfrentar a digestão por fagocitose ou providenciar que fosse uma
chacina alegórica. Alguém sairia devorado e isso dependia da sabedoria experimental da vítima e sua
capacidade de improvisação. Sabia que o Roger não tinha o traquejo na criação dramática, no jogo
cênico e na lida com o público e ele iria começar a aprender isso tudo de uma só vez da forma mais
crítica. Em um solo. Despreparado sempre estamos e isso era o que contava nessa hora. Até hoje
falamos a respeito, olhamos as cicatrizes e brindamos a vitória daquele espartano vencendo os olhos
curiosos da platéia. Aquele primeiro exercício prático do Roger unindo os seus próprios conceitos
com os da Cia Teatro Lumbra somaram os conceitos da dramaturgia do escuro, da projeção de slides, de
velas, da música e da incerteza própria das nossas experiências luminosas que deu nome ao suicida
EXPLUM. Foi o ponto de partida vivido por um só. Era o carrasco que foi suicidar-se e que viu a
exumação do próprio cadáver da nossa existência artística. Sobreviveu para nos contar a história.
Apesar de saber que não foi um sucesso de crítica, aprendemos todos como se permanece vivo no
labirinto da própria mente criativa no complicado fazer teatral da nossa cidade. Ali naquele
laboratório tínhamos o artista como cobaia e cientista ao mesmo tempo. Uma espécie de reality show
voluntário onde o premio era manter-se íntegro na frente dos espectadores sem perder a razão. Não
presenciei o fato, mas sabia do que se tratava pela experiência que tive em outros expedientes com
essa mesma natureza agourenta. Essa purgação aconteceu por mais umas três edições durante o período
que a turnê seguia pelo seu trajeto de vários meses. Segundo os relatos do autor algumas
apresentações do EXPLUM tiveram um estilo mais bicho-grilo e alternativo, próprio das
características testadas por seu interlocutor. Experiência metafísicaTrês meses depois a
equipe retornou da turnê. Retomamos o rumo do projeto no Centro Cultural Usina do Gasômetro com as
nossas atividades mensais e por necessidade começamos a pensar nessa prática como um tipo de
reciclagem conceitual e um exercício criativo onde a economia e os excessos lutavam para se
justificarem como alternativas viáveis de expressão. Algo confuso, mas que ensinava muito. Fizemos
algumas edições noturnas. Em um terraço, ao ar livre. Outras nas paredes, sem telas. Outra pelos
salões do prédio com bailarinos solando coreografias que não conhecíamos. Saímos do conforto da sala
fechada e fizemos em telas gigantes. Inventamos solos curtos que se alternavam e que não faziam
sentido algum. O público nunca foi o forte dessas ações e isso já não importava tanto. Uma vitória a
mais no quesito superação psicológica do elenco. Certa vez fizemos uma sessão em uma noite chuvosa
para três espectadores que circulavam dentro do prédio. Dois foram embora logo no início e o
terceiro parecia dormir em uma cadeira muito distante, num canto escuro do saguão. Depois de 40
minutos de exercício a música cessou e ouvimos o aplauso solitário do nosso espectador ecoando no
prédio vazio. Era a cobaia rindo das outras cobaias. Interessante naquele contexto culturalmente
melancólico. Com isso aprendemos a economizar. Perfomatizar. Dramatizar apelativamente no menor
tempo possível. Aumentar a dose sem ler a bula. Convidar o público a se experimentar. Abrimos cada
vez mais o peito. Um vale tudo onde o golpe baixo dava resultados excelentes. Ao menos para nós que
praticávamos aquela cerimônia suicida. Experimentamos trilhas pesquisadas, essencialmente
instrumentais e em níveis críticos. Algumas vezes, além de atuar, conseguia operar o som e editar as
trilhas na hora, fazendo o papel de disque-jóquei. Nunca havia ensaio. Somente combinações mínimas e
adereços do nosso acervo que eram escolhidos na hora. Cada um por si. Só precisávamos conversar,
saber o que cada um pretendia e tomarmos coragem para atravessar o portal da imprudência. Teatro não
se faz assim.Depois de algum tempo entendi que aquilo era um jogo perigoso e importante para a
evolução da companhia. A ação envolvia uma reputação que não valia tanto no mercado, mas tinha um
valor intrínseco a ser descoberto. Negócio que envolve um pagamento no desconforto de unir as
forças, agregar conhecimento, definir estratégia, uso de equipamentos, alguma força física e a
sensação de não saber direito o porquê de estarmos fazendo aquilo. Movimento que não sabíamos onde
iria dar ou se alguém iria gostar. O projeto continuou e o nome EXPLUM surgiu na seqüência. Em 2009
fizemos outras edições com uma temporada gratuita. O pouco público sempre foi uma característica
regional e nesta temporada não foi diferente. O que sustentou o ânimo dessa pesquisa mais formal
certamente foi o interesse da companhia e a curiosidade dos espectadores que ampliava o nosso
entendimento e as potencialidades. E dessa forma conseguimos depurar durante a temporada a qualidade
polivalente do artista das sombras. Entender mais profundamente a profissão “sombrista” valia mais
do que o rendimento da bilheteria ou o sucesso de público e crítica. Critério equivocado que ainda
serve para qualificar a arte cênica brasileira. Eu confesso que abstraí todo o aprendizado de
produtor e encenador comercial de 15 anos de carreira ininterrupta e me deixei levar pela emoção
pura de viver o não-teatro. Investi mais no desafio, na perturbação, na liberdade de sugerir sem
determinar e na minha própria permanência existencial e autoral. Não queria uma ação de autoterapia
que envolvesse o espectador, mas um ritual de regeneração pessoal da arte. Para isso o público
sempre se faz necessário. Lembrei do Augusto Boal e do seu legado. Dos rudimentos conceituais do
happening. Sem sabermos estávamos realizando o nosso Teatro de Sombras do Oprimido. Assim como eu,
os colegas sempre embarcavam nas propostas libertárias de fazermos um teatro de imagem e som.
Cadeiras de rodas, bêbados, drogados, velhos e figuras grotescas do nosso imaginário eram os
convidados para figurar como personagens.Descrição e registro de uma ocorrênciaPorto Alegre,
tarde de domingo de um verão do ano de 2009.Certa vez, por motivos fora da nossa alçada, tivemos que
apresentar a atividade EXPLUM no saguão principal do prédio do Centro Cultural da Usina do
Gasômetro. O horário divulgado na imprensa foi “às 17h”. Horário dos mais inadequados para a
estética e os recursos técnicos do teatro de sombras. Os agravantes eram óbvios e sugeriam fracasso,
pois estaríamos fora da segurança obscura da caixa-preta, lidando com luzes e sombras, com luz
diurna invadindo o ambiente por janelas verticais imensas de mais de 7 metros de altura. Isso não
inspirava ninguém da equipe. O ambiente muito iluminado pelo imbatível sol poente do rio Guaíba
(cartão-postal tradicional da cidade) quase nos fez desistir, mas o desafio parecia ser esse mesmo,
até porque havíamos convidado o músico Robson Sefarini para acompanhar e produzir a trilha sonora ao
vivo. Ele confirmou presença. Geralmente usávamos as paredes do prédio, mas nesta ocasião não seria
adequado. Imbuído pela inquietação, impertinência e senso de sobrevivência tive um raciocínio rápido
e de improviso bolei uma cenografia com varas de bambu que sustentavam três lonas plásticas amarelas
que serviam de telas e que ficavam posicionadas no alto de um mezanino. Sem demonstrar vacilo aos
colegas e tentando manter o moral alto, fui coordenando com firmeza a equipe na montagem e sugeri de
usarmos mais a presença do ator para suprir a falta da escuridão ideal e a debilidade da luz e da
sombra como protagonistas da ação. Acreditei que assim conseguiríamos fazer a cena acontecer com
mais alternativas o improviso que a ação pedia. Uma rápida passagem pelo acervo de adereços inspirou
o uso de máscaras plásticas, essas neutras, de lojas de R$ 1,99. Serviram para proteger os atores da
exposição excessiva, já que aplicamos os conceitos da neutralidade e simbolismo do teatro de
animação e não o ela convencional do teatro de palco. Além desse elemento dar uma quebrada na
recorrência estética que costumávamos usar com o teatro de sombras. As máscaras ofereceram uma
unidade. Um não-personagem. Um papel genérico aos não-atores. Tecnicamente os problemas de projeção
ainda permaneciam e de nada adiantam máscaras. Intuitivamente sugeri que todas as projeções fossem
feitas a queima roupa, com as fontes luminosas de 250 e 400 w muito próximas das telas, não mais do
que 20 cm de distância, com o objetivo de produzir alguma imagem perceptível, já que o público
ficava a uma distância de mais de 20 metros. A luta iniciou. A equipe de três atores/sombristas, um
músico e um contra-regra usaram instintos primitivos para permanecer por 35 minutos vivos na cena. O
publico parou para ver, aplaudiu e de quebra recebemos uma citação que colaborou com as nossas
dúvidas e descobertas, publicada no artigo do colaborador Caco Coelho, no caderno Arte & Agenda de
21 de fevereiro de 2009, no jornal gaúcho Correio do Povo, que transcrevo um trecho:“A Cia Teatro
Lumbra explora variadas disciplinas da ate na sua mais recente experiência luminosa, ‘EXPLUM’. Nela,
mesclam-se sons presenciais com sombras à luz do sol, projetadas em tecidos de plástico, sustentadas
por bambus samurai. Essa dialética, que também acontece na área técnica, alarga o interesse do
espetáculo, instigando todos os públicos. Seu exercício agrega a sensação psicodramática, transposta
nos corpos desvelados pelo fim da caixa-preta. Esta nova situação concreta, propiciada pelo ambiente
de pesquisa, amplia a margem da atuação do manipulador de sombras, exigindo o trabalho do corpo. A
fala sem palavras das sombras facilita ver, na sua simplicidade ancestral, o manifesto latente de
identidade, possível em qualquer linguagem. Aliás, a Cia Teatro Lumbra constitui sua trajetória
referenciada pelo folclore, no caso, regional, ou seja, brasileiro, brasileiríssimo.”Desapego e
desejo
- uma dramaturgia libertária e utópicaNesse mesmo ano de 2009 lançamos a tal temporada e
agregamos também outros elementos para provocar nossa capacidade cognitiva e produtiva. O colega
Roger continuou trazendo as novidades que eu não investia e não faziam parte do meu interesse
investigativo. No caso desse tipo de experiência, muitas vezes o critério envolvia um entendimento
anterior, já desembaraçado pelo sombrista e de evidência cênica, ou seja: evitar o efeito por si só
e criar ambientes favoráveis à dramaturgia da experiência. Isso colaborou para abandonarmos a pureza
do teatro de sombras desenvolvidos nos nossos espetáculos e agregarmos elementos e equipamentos das
artes visuais e do vídeo. Nas edições mais recentes plugamos um computador em um projetor
multimídia e uma câmera de vídeo, congregamos um guitarrista, depois um DJ com batidas eletrônicas e
por último um baixista. Além disso, tínhamos praticado o improviso com um retroprojetor, lanternas
compactas com lâmpadas LED, efeitos com lentes e reflexos com espelhos. Para ordenar um caos
inevitável fiz um roteiro inspirado nos elementos mais primitivos possíveis e numa lógica que não
precisasse ser decorada ou até mesmo seguida pelos participantes. Essa organização indicava um
objetivo concreto e evitava um possível relaxamento expressivo dos artistas. Aquele fator
pós-dramático que gera um cansaço na expectativa do público e torna difícil a recuperação da
dinâmica durante o processo conhecido por seu efeito desagradável de “barriga” ou de “falta de
costura”, comuns na direção de espetáculos e filmes. Cada ato resumia os seguintes conceitos mínimos
de subtextos, sensações, dinâmicas e afins:UM –
primitivo/mineral/fotográfico/segmentado/concretoDOIS –
analógico/vegetal/cinematográfico/enquadramento/orgânicoTRÊS – digital/animal/virtual/buraco
negro/cibernéticoQUATRO – Interatividade com o públicoO ato UM sugere um aquecimento gradativo para
ritualizar as ações iniciais, criar conexões mais elementares e incorporar a entidade pessoal para o
desenvolvimento da ação. Liberdade total e sensibilização dos sentidos para encontrar um caminho que
flua e ofereça associações.O ato DOIS acelera a dinâmica do grupo e do conjunto sobre aquilo que já
foi executado exigindo um raciocínio mais complexo e imediato nas articulações do jogo de cena e na
aplicação técnica da linguagem. A sensibilidade e a polivalência autoral na improvisação são
fundamentais para passar do ato anterior para este estágio.O ato TRÊS avança mais no tempo, no
espaço e na sensação metafísica da participação empurrando o autor a romper com todas as convenções
e formalidades. Momento que se utiliza todo e qualquer recurso disponível e o imprevisto é o que
vale para atiçar o lado animal de cada um. Nem sempre isso é alcançado em conjunto. Aqui o aparato
tecnológico de câmera de vídeo acoplada no projetor multimídia foi testado algumas vezes.
Proporciona efeitos de retroalimentação onde a imagem que é projetada é captada pela câmera e
projetada novamente e sucessivamente criando um retardo ou efeito delay, onde vemos efeitos
semelhantes a fenômenos caleidoscópicos e fractais em um looping de sinais. Essa dinâmica
desencadeia um entrelaçamento entre o analógico e o digital, o físico e o virtual, o concreto e o
surreal gerando imagens que evidenciam os membros e corpos dos sombristas, mas que são decompostos e
recompostos na medida em que se alteram radicalmente as intensidades das fontes luminosas e
sutilmente as angulações e o foco da lente da câmera de vídeo. Com o uso desse recurso ficam
evidentes as relações simbióticas do autor/ator com o meio e as ferramentas expressivas. Condição
necessária para o sombrista que a Cia Teatro Lumbra busca forjar nas suas encenações e performances.
Luzes de refletores dimmerizados em contraste com a dureza do foco de lanternas alteram os sinais
digitais do vídeo e formando esculturas de luz e riscos luminosos que possuem uma dinâmica quase
incontrolável parecendo terem vida própria. A ampliação do espaço de ação com esses recursos
potencializa e instiga buscas aleatórias, descobertas ocasionais e outros tipos de fenômenos
imprevisíveis nesse ambiente metalingüístico. Ingenuamente comparo essa ação ao ”efeito borboleta”.
Teoria da física e da matemática que tenta explicar uma condição inicial na teoria do caos.
Descrevendo de forma poética-científica, seria uma condição artificial, criada cenicamente e que
determina um comportamento e uma atitude do sombrista dentro de um sistema dinâmico que evolui no
tempo, de acordo com leis, que são ainda um tanto aleatórias e instintivas, e que são regidas por
equações espaciais cujas soluções são extremamente sensíveis às condições iniciais, de modo que
pequenas alterações e diferenças acarretarão estados posteriores extremamente diferentes.Todo esse
acaso e embaraço tem oferecido uma dramaturgia ainda inexplorada, quase desconhecida pela pouca
profundidade das avaliações no final desse ato e dos resultados alcançados. Parece que isso é um
ponto muito favorável para a continuidade e os desafios nas próximas experiências. Quando ocorre uma
sintonia pessoal e coletiva, o final desse ato parece ser um passe mágico entre o homo e o sapiens,
ou um deslumbramento sensitivo, muito semelhante às sensações relatadas em experiências com drogas
alucinógenas como o LSD ou de cunho espiritual, nas sessões que usam chás de plantas que tem em sua
composição cogumelos, peiote e ayahuasca, com intuito de provocar uma conexão do indivíduo com a
alma e a natureza. Nas experiências da Cia Teatro Lumbra não utilizamos nenhum destes recursos
indutores e os procedimentos quase sempre funcionam de forma mais imersiva e sensitiva resultando em
uma consciência expressiva muito gratificante. Nas edições que coordenei os participantes
reconheceram e relataram algumas das sutilezas dinâmicas do processo por meio da aplicação desse
roteiro do caos. Utilizamos em duas edições e pretendemos aplicar e explorar novamente esses
recursos dramáticos mais híbridos em suas possibilidades e variações. O fim desse ato é decrescente
em ritmo e intuitivo na conclusão. Geralmente termina em silêncio, no escuro e provoca o aplauso dos
presentes.O ato QUATRO inicia imediatamente após o silêncio, escuro e aplauso do público. Começa com
uma luz de serviço acesa e um convite formal ao público presente para experimentar na prática os
recursos usados na performance. Equipamentos de iluminação, câmera e projetor são ligados indicando
aos interessados a procedência e direção dos focos luminosos e a partir daí os voluntários mais
curiosos se organizam como querem e ocupam o espaço onde aconteceu a cena. As crianças são as que
iniciam a brincadeira primeiro e rapidamente reconhecem a sua própria sombra. Os adultos, mais
recatados, buscam conversar sobre suas impressões e perguntar como são realizados os efeitos e cenas
mais contundentes. Essa etapa não tem tempo definido e é monitorada e atendida por todos os
integrantes da companhia com uma música suave de fundo. É um momento de captar os diferentes
retornos dos espectadores e as subjetividades que alimentam a criação das novas experiências.
Momento de muito valor para o desenvolvimento e continuidade da pesquisa. O desconhecido sempre
ainda está por vir...
Neste ano de 2010 o projeto ainda não foi retomado na prática, mas seus
conceitos estão muito vivos e latentes. Assumimos que as práticas EXPLUM seguem pelo caminho da arte
das sombras, ampliando o entendimento expressivo, a potência prática dessa linguagem e deixando para
trás o rótulo teatral idealizado e aristotélico que conhecemos e praticamos. Essa é uma prática que
agora faz parte das dinâmicas experimentais avançadas com a arte das sombras e luzes da Cia Teatro
Lumbra e que oferecem oportunidades de investigar os possíveis diálogos através da improvisação com
outras formas de expressão e um estranhamento ao público. Entendemos que cada sessão propõe um
desafio intuitivo e imersivo, onde as explorações das variáveis visuais e sonoras do processo geram
uma experiência única, imprevisível e impossível de se repetir. Essa imersão investigativa e
interativa com o corpo, focos luminosos, sombras, aparatos óticos, projeções e instrumentos sonoros
para explorar as possibilidades de ocupação espacial, mudança de tamanho, movimento, ritmos, cores,
fusões, dinâmicas e reações com os espectadores aparentemente não revelaram nenhum limite
exploratório. A atividade precisa necessariamente iniciar na intimidade da arte, livre de
expectativas, de preconceitos e de romantismos. Lá na serenidade do vazio, do singular e do único do
indivíduo e do coletivo. Isso é o mais difícil de definir, portanto de tornar real.Rendo graças aos
meus amigos, colegas e colaboradores por terem forjado esse simulacro de sacrifício expiatório.
Agradeço aos que presenciaram e comentaram suas experiências comigo, pois foi verdadeiramente única
e reveladora.E por último, recomendo aos artistas: criem uma forma voluntária de renunciar, provar,
partilhar da privação e ofereçam suas almas para expiar os pecados de uma evolução inacabada e
efêmera. Fundamental para evoluirmos e termos uma arte necessária. Uma experiência iluminada antes
do escuro absoluto. Descrição técnica e duvidosaEXPLUM – Experiências Luminosas(Estréia 2007
– Laboratório Experimental da Cia Teatro Lumbra e do Clube da Sombra - Sala 200 do Centro Cultural
Usina do Gasômetro – Projeto Usina das Artes – Porto Alegre/RS - Brasil)Gênero: Arte performativa
com artes plásticas, teatro, sombras, projeções luminosas e digitais, efeitos, música e tendências
incertas.Tipo: Criação e improvisação com a arte das sombras e luzes em formato de performances ou
happenings em que as práticas dos fenômenos metafísicos audiovisuais e dos acontecimentos geram
incertezas com o público e os artistas. As atividades exploram a mistura e as tensões da linguagem e
da dramaturgia da arte das sombras com a dança, o teatro, a poesia, o cinema, o vídeo, a fotografia,
a música, o teatro de animação, a instalação plástica e outras formas de expressão.Público e faixa
etária: Sob consulta, podendo atender crianças e adultos de todas as idades.Temas: Performances
livres e instáveis com a possibilidade de interatividade de outros artistas e do público.Sinopse: As
sessões acontecem em um espaço amplo e escuro aonde as experiências luminosas e exploratórias são
conduzidas pelos sombristas manifestando-se através de projeções em telas, na arquitetura do
ambiente e outras superfícies. Equipamentos de iluminação, câmeras, projetores, efeitos especiais,
silhuetas, figuras, objetos e aparelhos sonoros servem como instrumentos para os corpos
protagonizarem cenas de alto impacto visual e dinâmicas cinematográficas. A música tem a função
sugestiva para a condução das performances e serve como fio condutor, onde a dramaturgia empírica
cria incertezas e tensões propiciando uma experiência sensorial ao público
circundante.ConcepçãoExperiência singular iniciada pelo artista plástico Roger Mothcy em 2007 como
exercícios práticos dos conceitos da Cia Teatro Lumbra e de novas possibilidades estéticas com a
escuridão, focos luminosos e sonoros. Atualmente tem a parceria do sombrista Alexandre Fávero e faz
parte das dinâmicas experimentais avançadas com a arte das sombras e luzes, investigando os
possíveis diálogos através da improvisação com outras formas de expressão. A cada sessão propõe um
desafio intuitivo e imersivo, onde a exploração das variáveis visuais e sonoras do processo geram
uma experiência única, imprevisível e impossível de se repetir. Uma imersão investigativa e
interativa com focos luminosos, sombras, aparatos óticos, projeções e instrumentos sonoros para
explorar as possibilidades de ocupação espacial, mudança de tamanho, movimento, ritmos, cores,
fusões e dinâmicas. Atividade que inicia com uma performance e segue com a interatividade do
público. Para crianças e adultos em sala fechada ou ao ar livre noturno.Tempo de duração entre 35 e
70 minutosFicha TécnicaIdéia e concepçãoRoger Mothcy e Alexandre FáveroCoordenação de pesquisa, arte
e execuçãoAlexandre FáveroAssessoria de pesquisaRoger Mothcy e Fabiana BigarellaAssessoria musical e
edição de somRoger Mothcy e convidadosSombristas e facilitadores da experiênciaAlexandre Fávero,
Flávio Silveira, Roger Mothcy e Fabiana BigarellaAssessoria eletrotécnicaPaulo Sicca Lopes e Cláudio
EscoutoProdução ExecutivaFlávio Silveira e Alexandre FáveroFotos das experiênciasFabiana Bigarella e
Cia Teatro LumbraProdução e RealizaçãoCia Teatro Lumbra e Clube da Sombra LtdaParticipação em
Eventos-Projeto Usina das Artes – PMPA - 2007-Projeto Usina das Artes – PMPA - 2008-Projeto Usina
das Artes – PMPA - 2009-Projeto Usina das Artes – PMPA - 2010Contatos, divulgação e
reclamações
Alexandre Fávero - www.clubedasombra.com.br clube@clubedasombra.com.br+55 (51) 3446
9134 ou (51) 9978 5657
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