26.02.2009 - O Cisne - Cia de Teatro Entre Linhas
O teatro de sombras brasileiro tem um novo espetáculo no circuito cultural do país. A Cia. de Teatro Entre Linhas, de Novo Hamburgo é a encarregada da estréia em Porto Alegre do espetáculo O Cisne, inspirado no conto O Patinho Feio, do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen.
Tive a oportunidade de conferir a apresentação de estréia que ocorreu no dia 14 de outubro de 2008, no Teatro Paschoal Carlos Magno , do Centro Municipal de Cultura de Novo Hamburgo a convite da diretora da companhia, produtora e sombrista Alice Ribeiro.
A pontualidade do início da apresentação e a manhã chuvosa daquele dia ocasionaram meu atraso de 3 minutos, mas pude chegar na calada do escuro, sem atrapalhar a platéia de crianças e adolescentes. Após a visão acostumar-se com a troca de luminosidade acomodei-me em uma das poltronas para apreciar essa nova produção que leva a direção do amigo e colega Paulo Balardim.
A esmerada produção que tem financiamento do Prêmio Myriam Muniz, concedido pela Funarte, com patrocínio da Petrobras e apoio do Ministério da Cultura apresenta à primeira vista a sua concepção plástica, com uma cenografia em branco e preto. Claramente inspirada na estética art noveau e que, além de suportar uma tela de lycra branca esticada em um bastidor serve como tapadeira para ocultar os sombristas.
Nesta janela irregular de não mais que 2 m por 0,5 m assistimos o nascimento, os dramas e a transformação do patinho feio em cisne. A seqüência de cenas revela uma cadência surpreendente das cenas que mudam constantemente de planos, em cenários que deslizam e conduzem os personagens adiante na narrativa. Pelo fato da fonte luminosa ser exclusivamente gerada por um aparelho de retro projeção e este, possuir lentes e apetrechos de reflexão adaptados para a apresentação, não oferecem muitos recursos de ampliação e distorção das silhuetas e imagens, imprimindo ao espetáculo ares de história em quadrinhos. Como se víssemos uma tirinha que vai se desenrolando na tela. Esse efeito também é salientado pelo sistema de cilindro adaptado à mesa do retro projetor e que desenrola alguns longos metros de cenários, com paisagens, máscaras, cores e outros efeitos cenográficos do espetáculo.
O desenho das silhuetas e cenários é de uma simetria que chega a incomodar. Fruto do árduo trabalho e pesquisa do criador Paulo Balardim que utilizou programas de computador para desenhar as figuras e que posteriormente foram impressas em acetato para o corte e a finalização em silhueta. Nos bastidores tive a oportunidade de conferir o impressionante e ínfimo tamanho das silhuetas.
Conforme a diretora da Cia e produtora do espetáculo, Alice Ribeiro, a motivação para a realização do projeto se deu pela constatação de que há poucos espetáculos infantis que utilizam a técnica do teatro de sombras. O diretor da montagem, Paulo Balardim, que também é fundador da Cia A Caixa do Elefante, destaca que a escolha do conto O Patinho Feio foi pela extrema atualidade do texto escrito no século 19. Segundo Balardim, o texto trata de questões como a exclusão social, a diferença e a auto-estima de maneira muito poética e sensível. “Nosso objetivo é divertir o público e, acima de tudo, estimular, de maneira sutil, uma reflexão artística e social sobre esse tema através do universo simbólico das sombras”, declara o diretor.
Alice Ribeiro frisa que as pesquisas para a montagem estão passando pela análise de alguns filmes específicos sobre o assunto e outros espetáculos de sombras. “as sombras só fazem sentido se forem experimentadas visualmente pelo espectador. Assim, a improvisação de cenas, a partir de um roteiro, acontece repetidas vezes e a cada vez vai se transformando e se aprimorando, pois novos efeitos e possibilidades de materiais para silhuetas, luz e jogos dramáticos vão sendo explorados”, observa Alice.
Balardim explica que a técnica do teatro de sombras trabalha sobre cinco elementos: ator e espectador (entre os quais ocorre um diálogo), fonte luminosa (qualquer corpo que emita luminosidade), suporte físico para projeção da imagem (tela) e silhuetas de sombras (objeto bloqueador da luminosidade, interposto entre a fonte luminosa e o suporte físico para a projeção da imagem). “É considerada uma arte milenar, com fortes raízes no Oriente, onde se destacam o teatro de sombras chinesas, javanesas e turcas. Atualmente, com os avanços tecnológicos, multiplicaram-se as possibilidades de exploração técnica. Hoje, existem casos em que o corpo do ator passa a ser o próprio suporte (tela) para a projeção da imagem”, detalha.
As apresentações na Capital do Calçado gerou convites para festivais e projetos de circulação fora do estado. Agora a peça cumpre temporada em Porto Alegre.
De 28/02 a 22/03
16h - Sala Álvaro Moreyra - Sábados e domingos
R$15,00 inteira
50% desconto para idosos e classe artística
10% desconto para estudantes
Teatro de Sombras sempre vale conferir de perto.
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