06.08.2009 - Caixa do Elefante revela a Moça Tecelã
Acompanho os projetos da Caixa do Elefante desde que a companhia criou seu primeiro espetáculo e tive a oportunidade privilegiada de trabalhar com seus fundadores montando e dividindo espaços criativos, trocando ferramentas de carpintaria, problemas cenográficos, cachês e sucessos.
O tempo trabalha sem parar e nos aproxima dos sonhos, desejos, objetivos profissionais e às vezes nos afasta dos amigos. Atualmente já não tenho mais o convívio que gostaria de ter com o Mário de Ballentti e o Paulo Balardim, salvo quando nos cruzamos por um desses inúmeros festivais que participamos ou quando faço uma visita na oficina de produção. Sempre temos muita coisa pra conversar e pouco tempo a desperdiçar, já que nossas companhias de teatro de animação são das mais atuantes e engajadas.
Pois neste final de julho encontrei uma das equipes de produção da Caixa do Elefante no espaço cultural Usina do Gasômetro. Estavam agitados com a produção do novo espetáculo adulto “A Moça Tecelã”, apresentando o trabalho de pesquisa em processo no Teatro Elis Regina para um seleto público. Realizar uma berlinda entre o público, o diretor Paulo Balardim e sua equipe é um sinal de comprometimento com os próprios conceitos. Considero esse tipo de processo de montagem um dos mais eficientes e exigentes, pois torna o resultado maduro, evitando muitas distorções na estréia.
Pois bem, vamos ao processo propriamente dito. Cabe salientar que além de todo o investimento da equipe na produção do espetáculo, tiveram que trabalhar muito limpando, revestindo, isolando e adaptando o espaço para oferecer um local descente ao público na abandonada caixa de concreto do Teatro Elis Regina.
Assisti uma das sessões lotadas de “A Moça Tecelã” com meus colegas da Cia Teatro Lumbra. Por estarmos em frente de um trabalho em processo, não convém criticar, mas sim registrar sensações que nos mobilizaram durante as cenas combinadas e cerzidas pela direção dedicada em mostrar a pesquisa e a experimentação. Mesmo podendo ter um tom de crítica, esse texto pretende registrar as principais sensações e lembranças da experiência.
O cenário é um teatro! Totalmente funcional, replicando uma caixa cênica com palco italiano, quarteladas, cortinas, rotunda, bambolina, varas e outras maquinarias e portinholas que ficam longe dos olhos. A escala da estrutura é adequada ao teatro de formas animadas e serviu bem toda a cena.
Na cena além de Carolina Garcia no papel de moça, Alice Ribeiro e Rita Spier atuam e se desdobram oferecendo uma assessoria oculta muito precisa na manipulação e na contraregragem.
Fui sem conhecer a obra de Marina Colasanti e fiz questão de não ler o texto de apresentação no programa que foi distribuído na entrada.
A proposta é ousada e atrevida ao misturar no palco projeções de vídeo, algumas vezes com ares de teatro de sombras, bonecos, adereços, atores, cortinas móveis e truques de ilusionismo.
É possível perceber que o caminho da pesquisa agrega a experiência e aprendizado do Paulo Balardim nestes 18 anos de companhia. A experiência na cenografia, construção de bonecos, montagem de espetáculos e a influência que teve pela escola européia do francês Philippe Genty, que marca pelo conceito híbrido dos recursos técnicos e pelo charme do ilusionismo.
Como disse, vou tentar não criticar ou elogiar, mas registrar um depoimento.
Na introdução, as atrizes cantarolam vestindo um figurino negro que sinaliza um luto com a sua própria energia feminina que emana do corpo e do texto. Em forma de jogral contam a história que será apresentada. Uma forma de evitar uma possível confusão na leitura da narrativa pelo público, nessa parte delicada do processo em construção, mas que certamente será suprimida.
Na primeira cena as personagens são veladas por todos os recursos plásticos para preparar o surgimento da Moça Tecelã, bem mais colorida e dinâmica. Uma cortina branca serve de suporte para uma projeção em P & B, que mistura a linguagem do vídeo com a animação, imitando a estética do teatro de sombras e revelando a tecelã trabalhando no tear. Através de um fio do tear surge um pássaro que alça vôo. A cena é muito poética, bem produzida e o efeito é bonito, mas parecer servir meramente como costura, deixando transparecer que é uma cena para que se ajustem figurinos, entrem objetos e a personagem principal surge por detrás do pano da projeção. A cena ainda é solta e procura o seu sentido no universo ilusório da encenação, pois se percebe nas cenas subseqüentes que o ilusionismo é uma ferramenta muito bem aplicada e que ali no palco temos o tear, a tecelã e todas as tecnologias e artistas competentes para executar o truque do vôo do pássaro com os recursos do teatro de animação. Um desafio difícil, mas plenamente possível.
Nas cenas seguintes vemos o desenrolar desse novelo de experiências onde a atriz Carolina Garcia dança, sorri, manipula objetos e cria cenas belíssimas com a sua presença e ausência.
O figurino da moça tecelã criado pela Margarida Rache é digno da mente perturbada do artista Artur Bispo do Rosário. Funciona como um cenário no corpo.
Além de vários pequenos solos da Carolina que são intercalados por cortinas, movimentos de luzes e projeções frontais e outras vindas do fundo com vídeos editados da própria personagem, uma cena de muito impacto é da personagem de pé com uma projeção de seu rosto em super close vinda do fundo, em contraluz, recortando a sua silhueta. Aqui eu arrisco em comentar o que tenho visto nos palcos ultimamente, quando consigo diferenciar e me isentar do uso do vídeo no teatro como uma ferramenta robótica e automatizante que subjuga e sujeita o ator e os outros recursos, achatando tudo em nome de uma tecnologia que resolve sozinha todos os problemas da cena. Quando vejo cenas assim imagino um intervalo onde os atores se desprendem de tudo aquilo e se direcionam lentamente até o camarim para tomar um café, preocupados apenas com a cronometragem de tempo que possuem para não fazer teatro. Aprecio a coragem e o risco do vídeo como um adereço que amplifica o que não conseguimos perceber e também revela os defeitos desse teatro mestiço. No caso dessa cena específica, de super close da atriz, uma câmera na mão é surpreendentemente mais teatral, ajudando na trama da linguagem e do próprio roteiro. Só sugestão. A cena de um cavalo em projeção de sombra, à moda antiga, também é uma experiência rápida e solta no contexto do trabalho. Fica muito distante e aquém das altas luzes e contrastes dos projetores multimídia que são utilizados. Cabe rever a necessidade do teatro de sombras para não desvaloriza-lo dentro da obra.
As cenas de ilusionismo, onde aparecem e desaparecem os objetos de uso da tecelã são imprevisíveis, mas não devem desviar demais a atenção do público para o truque. Quando assistimos números de mágica é que temos aquela sensação de que fomos enganados e em seguida ficamos com uma angustiante dúvida martelando a cabeça que nos faz ficar pensando com todas as energias “como é que aquilo foi feito?” Dependendo do caso, até nos desligamos do truque seguinte. No caso do espetáculo, ainda será necessário achar a dosagem certa. Que cause encanto sem desencantar a atenção do espectador para a narrativa.
As cortinas brancas que correm nas varas de um lado para o outro e que servem para várias finalidades cansam rápido. Estão a serviço de muitas cenas, mas por fazerem barulho e serem excessivas no seu vai e vem, causam efeito contrário, dispersando o foco visual e auditivo. Dosar o essencial é necessário.
O boneco realista do marido da moça tecelã é surpreendente pela ilusão que causa na sua primeira aparição. A manipulação é precisa na leveza e no tempo. Segundo o Balardim, a construção desse boneco exigiu diversos protótipos, materiais, experiências, técnicas, dinheiro e tempo para alcançar um resultado eficiente. A presença do boneco quando conduzido pelas mãos leves das mulheres do elenco, fica sempre naquele limite do inanimado ou humano. O momento da aparição do boneco, assim como dos demais objetos que surgem como encanto durante as cenas, deve ser estudado mais a fundo. Muitas vezes é evidenciado o truque de aparecer e desaparecer, evidenciando o ritmo de uma mágica, e ao meu entender o conceito do texto, próprio da dramaturgia que irá amadurecer, pede que o surgimento desses objetos e personagens surja da criação da realidade tecido no próprio tear da tecelã. Mais adequado ao tempo das mãos que tecem, com gestos femininos e reveladores. Os elementos para isso já existem na cena e ainda não são dominados completamente. A forma e o tempo como surgem esses efeitos especiais serão melhores explorados quando os figurinos e a luz tênue assinada pelo Bathista Freire e o Daniel Fetter ajudarem a evitar a mágica, tornando a ilusão um fator mais afinado com a dramaturgia e auxiliando a tensão daquilo que aparece como um encanto.
Quanto à trilha assinada por Nico Nicolaiewsky, ainda não está integrada ao material das experiências. A identidade sonora não está coesa e as referências usadas são muito amplas. Vão de ritmos que lembram a música cigana, a nórdica e a MPB. Uma mistureba que com certeza vai indicar um caminho certo e adequado.
A protagonista é a altura do desafio proposto pelo diretor. Está segura e tem energia de sobra para todas as tarefas que a atuação exige. Falta uma relação mais humana com a cena, pois ri, entristece, seduz, namora, foge, dança cheia de caras e bocas, com expressões essenciais para modular as emoções, mas inacreditavelmente não produz ou emite som algum. Nem um gemido, sussurro ou riso é emitido, distanciando a personagem do público, retardando uma possível empatia com o espectador, causando um estranhamento e principalmente não conseguindo ampliar a vida do boneco que contracena com ela. A natureza humana é necessária no teatro. Melhor se for sem exageros e canastrices.
Outra cena que recordo e a das cadeiras que surgem magicamente e que servem para que a moça tecelã use uma delas de forma circense, tentando equilibra-la, apenas por duas pernas apoiadas no chão. A cena cria uma tensão, sugere uma metáfora, mas não fica definida a intenção ou a relação dentro da narrativa. Por duas vezes, o ponto de equilíbrio é alcançado, a cadeira pára, sem que a atriz toque no objeto, mas é tão fugaz que dá uma impressão do truque ter falhado.
No decorrer das cenas ainda podemos ver a fusão das linguagens de vídeoarte com teatro, onde temos uma edição de cenas de fios e tramas sobre a cena das atrizes. Creio que o recurso é muito mais potente e está gabaritado pela Beterraba Filmes do que a própria concepção e desenho de luz da cena. Difícil optar e dosar esse recurso sem cair no deslumbramento tecnológico.
Afirmo que fiquei surpreso e feliz com a pesquisa apresentada nesses 40 minutos. Notei que o material gráfico apresenta problemas de concepção e erros, mas fui para ver a cena, a pesquisa, o amadurecimento estético e conceitual da Caixa do Elefante. Encontrei a lã bruta cardada, fiada e enrolada em um novelo. Fico feliz de saber que depois de muito trabalhado cada fio, o conjunto vai revelar um espetáculo original e requintado, bem amarrado e com a qualidade que essa companhia sempre busca nas suas obras. Os debates depois de cada apresentação valem muito para os encenadores e vai dar o estofo para a próxima estréia, prevista para maio de 2010. Estarei lá.
Alexandre Fávero
Diretor e sombrista
Cia Teatro Lumbra/Clube da Sombra LTDA
Abaixo a ficha técnica e o contato da produção da Moça Tecelã
Direção: Paulo Balardim
Elenco: Carolina Garcia, Alice Ribeiro e Rita Spier
Direção Musical e trilha sonora: Nico Nicolaiewsky
Orientação para tecelagem: Patrícia Preiss
Orientação para efeitos de ilusionismo: Eric Chartiot
Cenografia: Paulo Balardim e Juliano Rossi
Cenotécnica: Juliano Rossi e Daniel Fetter
Figurino da Moça: Margarida Rache
Figurino das Parcas e do Marido: Carolina Garcia, Alice Ribeiro e Rita Spier
Iluminação: Bathista Freire e Daniel Fetter
Operador de som e manipulação de imagens em vídeo: José Derli
Criação gráfica: Mario de Ballentti
Produção de vídeos: Beterraba Filmes
Preparação vocal: Marlene Goidanich
Estúdio: S. A. Produtora de Áudio
Produção: Carolina Garcia
Realização: Caixa do Elefante Teatro de Bonecos
Paulo Balardim
Fone: (51) 3061.6291
Cel: (51) 9822.6291
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