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2º dia - 12 DE FEVEREIRO DE 2004

Biblioteca Pública PelotenseConforme programado com o Sr. Mogar, nosso itinerário no decorrer do dia 12 seria: visita na Biblioteca Pública, no Theatro Sete de Abril, no Club Caxeiral, na União Gaúcha, no Cemitério da Santa Casa e na Estância da Graça.

 

busto do CapitãoNo período da manhã, na Biblioteca Pública Pelotense, registramos algumas imagens de livros sobre a época das charqueadas no estado e do singelo busto do Capitão, feito de gesso pintado de dourado e com algumas rachaduras.


Situado numa ampla sala de leitura, ao lado da escadaria principal. Registramos a arquitetura do prédio, datada na fachada com o ano de 1913 e de alguns detalhes decorativos, no interior, datado em 14 de novembro de 1875.

 

Theatro Sete de AbrilFotografamos e filmamos o Theatro Sete de Abril, primeiro teatro do estado, do ano de 1834, com seus vitrais na fachada, alusivos a bandeira do Brasil. O prédio se encontra bem conservado e pode-se ver, nas paredes de acesso aos camarotes, diversas placas de menção honrosa a muitas figuras do meio político, artístico e social, porém, nenhuma dedicada ao grande dramaturgo pelotense, que tanto sucesso fez neste palco, sob o pseudônimo de Serafim Bemol.

Club CaxeiralApós o almoço marcamos de encontrar com o Sr. Mogar, que iria nos acompanhar pela cidade. Iniciamos pelo Club Caxeiral. Instituição visivelmente abandonada pelo quadro associativo e muito bem freqüentada pelas pulgas, que nos infestaram as pernas. Segundo informações, da recepcionista, que nos acompanhou, o Club ainda é utilizado para festas de formaturas, casamento e demais atividades sociais. Nas paredes do salão, no andar térreo, existem belas colunas decorativas e quadros com fotos de personalidades da sociedade pelotense. Para nossa surpresa não foi constatada nenhuma referência ao Capitão nas dependências da Instituição, da qual tanto se utilizou, nas suas reuniões de negócios e empreendimentos.


União Gaúcha J. Simões Lopes NetoPosteriormente nos dirigimos a União Gaúcha J. Simões Lopes Neto. Cruzamos por bairros da “Cidade Nova”, em direção a periferia.



Já na estrada de acesso, foi possível ver ao longe uma grande placa, de uma conhecida marca americana de refrigerantes, onde abaixo, em letras miúdas, estava o nome do Capitão, que tanto fez para a tradição do povo gaúcho. Uma aberração cultural que impressiona. A entrada oficial possui uma singela placa contendo o nome, o ano de fundação e o ano do centenário: 1899 UNIÃO GAÚCHA 1999. O local possui grandes galpões onde funciona um escritório, amplo salão de bailes,com lareiras nos cantos e churrasqueiras no fundo. Possui também um modesto museu, guarnecido por um pequeno portão metálico trancado com cadeado.

título de efetivação de sócioAo ser aberto, presenciamos alguns objetos da lida campeira, como relhos, estribos, pequenos móveis de madeira e um título de efetivação de sócio, assinado pelo presidente João Simões Lopes Neto, com data de novembro de 1906 e ricamente ornamentado com interessantes ilustrações do universo gauchesco. Também na parede estava um quadro em comemoração do monumento erguido a Bento Gonçalves da Silva e que nos consta, é de autoria artística do Capitão.

tinteiro de cristal O objeto mais curioso é, sem dúvida, o tinteiro de cristal, com penas metálicas e locais para dois frascos de tinta. Esta peça, conforme informação local, é creditada como material pessoal do grande escritor de contos, João Simões Lopes Neto. Ao lado, existe uma cigarreira metálica, também de origem incerta. Nos fundos do prédio vimos alguns cavalos, amarrados à sombra e grande quantidade de baias. Iniciativa das gestões anteriores, para garantir a segurança contra invasões clandestinas no amplo terreno, pois faz vizinhança com uma vila repleta de casebres. Típico das cidades interioranas em crescimento.

mausoléu do Visconde da GraçaRetornamos à “Cidade Velha” para uma última investigação no Cemitério da Santa Casa. A parte antiga do cemitério já está descaracterizada por um grande prédio moderno situado á frente. Nota-se que as duas construções de épocas e estilos distintos são separadas por uma pequena rua e um muro centenário, caiado de branco. Identificamos de longe o grande mausoléu do Visconde da Graça (01.08.1817 – 25.10.1893) e demais parentes.



Uma obra imponente feita de mármore tão branco, que se torna difícil fotografar, tamanha a claridade que emana com o sol das três da tarde. Próximo, o suficiente para comparações de escala e divagações filosóficas, está o jazigo JOÃO SIMÕES LOPES NETTO (9-3-1865 14-6-1916)da família Custódio Gonçalves Belchior. Também em mármore branco, porém sem suntuosidade. É neste jazigo, emprestado, que encontramos a inscrição JOÃO SIMÕES LOPES NETTO (9-3-1865 14-6-1916) gravada na pedra. Também consta o nome da esposa Francisca M. Simões Lopes, a dona Velha e da filha adotiva Firmina O. Lopes, ambas sem data de nascimento e morte. Mais adiante vimos o solene túmulo daquele que foi o maior divulgador da obra simoniana, seu editor e amigo, o Coronel Guilherme Echenique, proprietário da Echenique e Cia, de Pelotas e também o curioso jazigo, ainda desocupado, do Sr Mozart Victor Russomano e esposa, fiéis depositários dos espólios do Capitão até o momento.

 

Sem dúvida, este breve passeio pelos corredores do Cemitério da Santa Casa, revelaram uma cidade de enorme riqueza histórica e proporcional descaso com o belíssimo patrimônio que possui. As futuras gerações perdem uma importante referência que os miseráveis saqueadores e vândalos roubam. É na calada da noite que a história de uma das cidades mais importantes do país é roubada, pedaço por pedaço, letra por letra, grama por grama, bem na barba dos sonolentos administradores. Lastimável.

placa da ruaLástima comparada à escolha da rua, a beira de um valão poluído, que serve de homenagem póstuma ao nosso estimado Capitão da Guarda Nacional. Lastimamos mais esse prejuízo registrado por nossas lentes atentas.



caixa d'águaComo despedida da cidade, percorremos algumas ruas de interesse histórico, sempre guiados pelo incansável Sr. Mogar, que nos indicava referências de fatos ainda não registrados nos livros modernos. Passamos pela Casa da Criança S. Francisco de Paula, onde residiam os poderosos Simões Lopes. Visitamos rapidamente a capela da Santa Casa, onde fomos proibidos de registrar imagens do conteúdo patrimonial do prédio. Critério justificável, porém, não explicado. Para compensar a censura aplicada na Santa Casa, deleitamo-nos a contemplar a beleza da caixa d'água, situada na praça em frente.

Nos surpreendeu pelo tamanho e estilo da estrutura. Ricamente trabalhada, em metal vindo da Europa, com uma bela escada em caracol. Segundo o Sr. Mogar, Pelotas é uma cidade cheia de surpresas e informações históricas. Vale a pena investir o tempo nas ruas e casarios para descobrir seus encantos. Temos que voltar outro dia, Sr. Mogar!

Depois de uma breve despedida e troca de contatos com nosso amigo Mogar Xavier, nossa equipe partiu na direção de Porto Alegre, rumo à Estância da Graça.

No caminho, paramos para nos abastecer de água, frutas e verduras frescas. Oportunidade para verificarmos se a população local conhecia a famosa Estância da Graça.

entrada da estânciaAo perguntarmos o rumo correto, para um preto velho que empurrava uma bicicleta, informou que não era para a direção que estávamos seguindo. Noutro ponto, próximo ao cemitério, perguntamos a uma senhora quitandeira, de meia idade, que não soube informar do que se tratava e indicou um senhor, de idade já mais avançada, que teve de chamar outro senhor, pois não sabia nada sobre o assunto. Este último tinha uma vaga lembrança do nome Simões Lopes, mas não possuía informação precisa sobre a referida Estância da Graça. Pagamos as compras e seguimos por conta das informações que Mogar havia nos passados. Cruzamos pela ponte de arcos, até o pedágio da BR 116, onde solicitamos nova informação a uma senhora, que corretamente indicou o acesso, por estrada de chão até a entrada da Estância. Logo cruzamos por um pequeno vilarejo, um grande silo de arroz e algumas porteiras pintadas de vermelho, sinal da aproximação da Estância. Ao longe já se via o contraste do casarão de dois andares, pintado de vermelho antigo, com janelas verdes e brancas. Na entrada, dois grandes eucaliptos emolduravam a porteira aberta onde se lia: ESTÂNCIA DA GRAÇA – Luiz Simões Lopes, e um desenho de marcar o gado.

Antes de sairmos de Porto Alegre, rumo a Pelotas, alguns contatos, sem sucesso, foram feitos no intuito de marcarmos nossa visita a esta Estância. A única referência que tínhamos era o apelido do atual proprietário, um certo Ton Ton, que sabíamos morar no Rio de Janeiro e que não se encontrava com facilidade, nem aqui, nem acolá. Apontamos o carro em direção a casa e fomos, no tranquito, esperando a abordagem de algum capataz. Nem gente, nem cachorro vieram nos receber. Coisa estranha para aquele local, naquelas lonjuras.

fachadaA casa estava completamente aberta, como se estivesse arejando no vento. Batemos palmas e nada. Estacionamos o carro fora do jardim, próximo a um mata burro e nos aproximamos lentamente. A curiosidade mata, mas também faz o curioso viver. Com receio de que nossa incursão fosse interrompida a qualquer momento, de câmera em punho, começamos a registrar as primeiras imagens da fachada e arredores, na ânsia de não sair corrido com as mãos vazias. Quando sentimos a presença no interior da casa e alguns cachorros vieram ao nosso encontro, o constrangimento foi mais forte e recuamos. Da porteira, ao longe, vinha um trator. Fomos pedir licença. O jovem capataz informou onde encontrar os responsáveis pelo local. Fomos até lá e encontramos com outro capataz, vestindo traje moderno de peão. Indicou outra responsável, a Sr. Sílvia, se não me engano, secretária do misterioso proprietário. Expliquei a razão de nossa chegada e ela prontamente sacou do interior da caminhonete um celular, dizendo que tentaria contato com o proprietário. Dei algumas referências de pessoas ligadas ao Instituto JSLN e aguardamos a resposta. Nos quarenta minutos que se passaram, cevamos um mate e percebemos que a casa já começava a fechar portas e janelas. Mau sinal. Com autorização para fotografar e filmar a parte externa fomos nos deliciando com a arquitetura colonial, os detalhes de origem européia e a paisagem tranqüila daquele lugar. Tudo parecia imóvel no tempo. Até o sol se movia mais devagar. Só se ouvia os gritos estridentes das caturritas, em ninhos enormes, penduradas nos eucaliptos centenários. Não demorou e a casa começou a abrir portas e janelas. A autorização estava concedida!

azulejosPercorremos a sala de estar toda decorada com espadas, pinturas, e artefatos campeiros muito antigos. A aparência era de um museu cheio de fantasmas que sesteavam, a espera do cair da noite. Na sala ao lado, aparentemente construída para matear e ler livros, muito bem iluminada por amplas janelas, com uma porta que levava ao pátio lateral. Na pouca decoração desta sala, quase totalmente branca, via-se pequenos quadros, compostos por seis azulejos, aplicados sobre uma moldura de madeira onde mal se podia identificar a pintura existente. Na única mais preservada, as cores desbotadas mostravam uma cena: A lenda do Negrinho do Pastoreio. Em primeiro plano estava o estancieiro mau, já arrependido, de joelhos e mãos postas a contemplar o negrinho, que montado em um cavalo, a tocar uma manada de potros pelos ares, recebia a proteção de sua madrinha, Nossa Senhora. Infelizmente as outras cinco imagens não preservaram nem o esboço, ficando a terrível dúvida. O que continham? Quem as teria pintando? Seria uma encomenda do autor que imortalizou estas lendas? Vamos em frente! Subindo as escadas encontramos uma prateleira repleta de livros interessantes sobre o Rio Grande, a Revolução Farroupilha e outros temas abordados pela família de escritores Simões Lopes. Os quartos e banheiros possuíam móveis e acessórios muito interessantes. Camas de madeira ricamente entalhadas, banheiras de ferro, grandes armários de madeira de cerne, cabides com cenas clássicas da Europa, dentre outros. Na sala de jantar uma enorme mesa sustentava um candelabro trabalhado com figuras humanas. Na parede imagem de Nossa Senhora da Graçaquadros com temas de caça. Um grande relógio cuco, todo lavrado em madeira, marcava o horário pontual de 17 horas e 52 minutos. Ainda funcionava. Do segundo andar se tinha uma bela visão da capela. Segundo as governantas, a parte dos fundos da casa foi construída posteriormente, e circundava o terreno, tendo no centro um amplo pátio calçado com pedra, com a imagem de Nossa Senhora da Graça ao lado de uma frondosa árvore. Foi impressionante poder registrar tantos detalhes congelados no tempo.

azulejosPara qualquer lugar que olhássemos víamos maravilhosas obras que inspiravam devaneios sobre a vida naquele local. Telhas esmaltadas nos beiras das portas, finamente trabalhadas. Candelabros de cristal e cobre. Portões de ferro torneado. Uma pedra de moinho e bancos de azulejos portugueses, pintados à mão, dentre outros, em alto-relevo. Um verdadeiro garimpo de história e tradição familiar. Arriscamos perguntar a uma governanta sobre o local exato do nascimento de João Simões Lopes Neto, o Joca. Depois de muito pensar e questionar suas colegas, nada informou a respeito. Fomos então, até a capela, situada ao lado da casa, que possui uma pequena torre para o sino e a capacidade para umas 40 pessoas sentadas.

Dois grandes butiazeiros, com cachos carregados de fruta, maduras na ocasião, decoram o gramado, em frente à capela. A porta de madeira foi aberta com a chave que ali estava. No seu interior, os bancos de madeira e o altar capelaemoldurado por uma imagem em azulejo, tipicamente português, ostentando a figura de Nossa Senhora da Graça, segurando o menino Jesus, toda pintada em azul. Muito bonito e de bom gosto. Numa sala contígua estava uma mesinha que sustentava uma efígie, de metal, de Jesus Cristo coroado e uma grande medalha de bronze, da Sociedade Nacional de Agricultura, com data de 16 de janeiro de 1897. possivelmente uma comenda ao Capitão, por seu envolvimento nesta área O sol de fim de tarde entrava pelas janelas laterais, Cristoiluminando um dos objetos mais iimpressionantes que ali vimos. Uma pesada cadeira de madeira escura, de lei, possivelmente usada para o sacerdote descansar durante os ritos, com o encosto e assento finamente entalhados. O encosto estampava a figura de um lindo rosto feminino, com expressão tristonha, mas delicadamente enfeitada. Seus seios estavam de fora e no lugar das mãos: asas; no lugar das pernas: uma cauda enrolada de animal. Tudo ornado por rococós de folhas vegetais, enquanto no topo, acima dessa figura central feminina, uma carranca, com olhar baixo, como um guardião. Sua barba misturava-se com as folhas que circundava o conjunto. Impossível ficar sem meditar naquela cadeirafigura destacada na sala da capela e tão presente no imaginário simoniano. Teria sido inspiração a Teiniaguá encantada e o Santão, seu guardião da Salamanca do Jarau? Qual a origem desta exótica peça? Teria sido mais uma alfinetada anticlerical do próprio autor da Salamanca do Jarau? Laus'Sus-Cris'!!! Pairam outros mistérios no ar...

Concluímos a primeira parte de nossa jornada com esta insólita passagem pela Estância da Graça. O belíssimo sol poente indicava a direção de nosso próximo objetivo: a Coxilha de Santana. Tomamos a BR 293, em direção a Bagé, às 19 horas e 15 minutos. O próximo ponto da pesquisa era documentar a paisagem do Pampa e a vida campeira dos gaúchos. Nosso contato para essa empreitada foi o Sr. Colmar Duarte, estancieiro de Uruguaiana, grande poeta e estudioso da lenda da Salamanca do Jarau. Segundo informações do tradicionalista Glênio Fagundes, este Sr. seria um grande entendido, excelente referência para nos versar os segredos da lenda e do conto simoniano. Estávamos indo ao encontro, conforme havia agendado, dias antes, por telefone, com o próprio Sr. Colmar Duarte.

Segundo nossos cálculos, não seria possível chegar em Uruguaiana, em tempo hábil para um encontro paciente e tranqüilo com nosso anfitrião, pois tínhamos que vencer 600 Km de estrada, à noite. Nem pensar! Pois queríamos ver a extensão verde do pampa. Decidimos parar para descansar em um local que oferecesse água, lenha e paz de espírito. Localizamos no mapa o Rio Piratini. Vinte minutos depois já estávamos com o carro estacionado ao lado da ponte, nas barrancas do enorme rio, seco nesta época do ano e com pedras enormes. Acampamos entre a ponte velha e a nova. Tínhamos lenha em abundância e prontamente providenciamos um fogo de chão para espantar a escuridão da noite e preparar um saboroso arroz de carreteiro. Infelizmente feito com charque paulista, comprado, dias antes, no Mercado Público de Porto Alegre e que, segundo informação do vendedor, único charque de qualidade no Brasil. Quando questionado sobre o produto pelotense, disse com autoridade e deboche, que o citado município só produzia doces e “veados”. Mais uma aberração histórica. E digo, que o tal charque paulista, era de péssima qualidade!!! Modéstia parte... “o saboroso jantar” ficou a cargo da boa mão do cozinheiro.

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