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3º dia - 13 DE FEVEREIRO DE 2004
Na manhã seguinte, já dia 13 de fevereiro, tomamos um banho num córrego remanescente do rio, cevamos um mate e recolhemos a tralha do acampamento. Por volta das 10 da manhã apareceu um sujeito, montado em uma moto-táxi, de algum município vizinho. Perguntava se tínhamos visto, nas imediações, o cunhado, puxando uma vaca. Respondemos que não e oferecemos umas cuias de mate ao desconhecido, que disse estar esperando o parente, para ajuda-lo a atravessar uma vaca leiteira, comprada por R$ 300,00, no passo do rio. O calor já era forte e terminávamos de carregar as bagagens no carro. Entre uma cuia e outra, puxamos assunto sobre nossa pesquisa. Perguntamos se conhecia o Cerro do Jarau, no município de Quaraí. Prontamente respondeu, em tom de advertência, que o citado lugar era um terror. Pois existiam muitas assombrações. Maravilha!!! Discorreu mais sobre o assunto, comentando que já havia ouvido falar, de várias pessoas que procuravam tesouros escondidos. Inclusive este cunhado, que já vinha se aproximando com a vaca, e que tinha um plano de comprar um moderno detector de metais, desses que se regula qual metal se deseja encontrar. Referindo-se, com certeza, ao ouro e a prata dos tesouros escondidos embaixo da terra. Embarcamos no carro para seguir viagem, pois o semblante desconfiado do futuro caçador de tesouros que se aproximava, parecia já ter pulgas demais atrás das orelhas. Seria de melhor efeito que o seu parente levasse o assunto adiante, reforçando a superstição das lendas, enquanto atravessavam o rio com a vaca.

Seguimos pela estrada com o sol nas costas.

paisagem Fomos percebendo a mudança da paisagem, onde se via as coxilhas sem fim com seus grandes matos de eucalipto. Mais adiante avistamos a bizarra estrutura de concreto da usina de Candiota. Coisa das mais estranhas naquele horizonte reto e infinito. Às 13 horas paramos em Dom Pedrito para almoçar e carregar as baterias de nossos equipamentos de filmagem e telefones celulares.

A viagem seguiu tranqüila embalada por milongas de Bebeto Alves, gaitaços do Renato e os clássicos gauchescos de Marcello Caminha. Trilha ideal para inspirar nossa jornada.

Na altura do município de Santana do Livramento o tempo se armou pra chuva. Conforme a previsão do tempo, vista na televisão, na hora do almoço, a frente vinha da Argentina e indicava problemas nas futuras paradas para pernoitar.

Nei GalvãoAntes de chegarmos a Quaraí, por volta das 18 horas, a chuva já caía forte nos pequenos cerros da beira da estrada. Abastecemos o tanque na cidade e tentamos contato, por telefone, com o Sr. Colmar Duarte, sem sucesso. Nosso objetivo inicial era aceitar o convite de Colmar, residente de Uruguaiana, para conversarmos sobre o universo da lenda da salamanca. Mesmo sem aviso prévio, seguimos para a cidade fronteiriça de Uruguaiana, deixando a cidade de Quaraí por uma estrada em obras, onde se podia ver as placas do comércio local fazendo referência ao famoso Jarau. Posto Jarau e sapataria Jarau. Estávamos no calço do lendário cerro da salamanca encantada. As nuvens carregadas e baixas cruzavam rasantes sobre o topo das elevações e a cada curva firmávamos a vista em busca de uma indicação do cerro. Na beira da estrada vimos uma placa, escrita em letras vermelhas: TEINIAGUÁ / Nei Galvão.

placaEra a primeira pista do cerro. Tocamos adiante e vimos uma grande placa de sinalização indicando CERRO DO JARAU estacionamento mantenha a direita. A nossa esquerda estava o acostamento para o visitante parar e contemplar a bela silhueta do Cerro do Jarau, inspiradora do conto simoniano.

Tínhamos conhecimento de que a comunidade de Quaraí depositava muito respeito a esse local, pois obtivemos informações importantes, graças a uma correspondência, recebida como resposta, de uma solicitação de informações, enviada e assinada pela Companhia Teatro Lumbra, de Porto Alegre, ao Centro de Tradições Gaúchas Sentinela do Jarau, de Quaraí, no mês de outubro de 2003. Muito solidário aos interesses de nossa pesquisa, o citado CTG enviou a resposta, no mês de dezembro de 2003, esclarecendo diversas questões sobre aspectos históricos, geográficos e geológicos do Cerro do Jarau. Nesta correspondência, remetida e assinada pelo atencioso Patrão da entidade tradicionalista, o Sr. José Eri da Luz Corrales e a 2 a Sota Capataz, Sra Pelucina Nunes Corrales, é que foi possível percebemos o grande carinho que o povo de Quaraí tem pelos seus legados históricos e naturais. O conteúdo da carta foi dos mais completos, trazendo informações sobre distâncias da cidade até o cerro, condições das estradas de acesso, nomes dos proprietários das estâncias situadas no cerro e diversas indicações de pessoas, ligadas ao tema, que poderiam dar depoimentos para completar nossa pesquisa. Anexo a carta constavam cópias de depoimentos de historiadores, levantamento dos aspectos geológicos e geomorfológicos do ano de 1984 e 1985, pertencentes aos arquivos do Centro Cultural de Quaraí e ainda uma cópia do conto simoniano, A Salamanca do Jarau, da edição de Lendas do Sul. No final da carta, podemos perceber, um desejo explícito, que o município torne-se um referencial ao turismo histórico do estado. Ao nosso ver é um belo desafio lançado às entidades tradicionalistas da região e uma importante iniciativa ao legendário Capitão.

marco inauguralAinda no pé do Cerro, sob chuva fina e insistente, verificamos um marco inaugural desta novíssima RS 377. Constavam as inscrições, gravadas em uma simplória placa metálica, dos limites de início e do fim do trecho, emolduradas com o brasão do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e os anos 1999-2002. Infelizmente não foi registrada nenhuma referência ao escritor gaúcho que divulgou aquele lugar ao povo riograndense. Mais um lamentável descaso historiográfico dos políticos locais ou uma mera ignorância literária.

andarilhoEssa rápida passagem pelas cercanias do Cerro do Jarau ainda nos revelaria outras surpresas. Seguindo em direção a BR 290, próximo ao Arroio Mata Olho, encontramos na beira da estrada um andarilho barbudo, maltrapilho e coberto por uma lona, a vagar na chuva, em direção ao Cerro. Lembramos imediatamente da figura do guardião da salamanca encantada do Jarau. Paramos e pedimos informação sobre a localização da furna da teiniaguá. Ele parou e disse, balbuciando, ser na direção que estávamos seguindo e que, mais adiante, deveríamos dobrar a esquerda. Categoricamente concluiu que lá encontraríamos o que procurávamos. Deduzimos que ele desejava nos despistar ou realmente não entendia do que falávamos. Ele seguiu sua caminhada, solitário e escondido pelo manto plástico improvisado. A sinistra imagem se completava com a silhueta cinzenta do Cerro mais ao fundo. Tal como o sacristão, que sumia, na sombra da reboleira. Como se não bastasse todo esse devaneio do nosso inconsciente coletivo, surgiu repentinamente um carro, que parou mais à frente, fez o retorno e veio lentamente em nossa direção. O motorista, abrindo o vidro, perguntou-nos se havíamos visto um veículo capotado, fora da estrada, que acabara de sofrer um acidente. Após respondermos, negativamente, cada carro seguiu seu destino. Para nosso alívio... Em direções opostas. A la fresca!

RETIROPelo espelho retrovisor via-se o Cerro ficando ao longe enquanto a chuva apertava mais. Chegamos a Uruguaiana por volta das 19 horas e tentamos novo contato telefônico com o estancieiro Colmar Duarte. Depois de algumas tentativas conseguimos seu endereço e fomos ao seu encontro. Ele nos aguardava em sua residência urbana, na beira do rio Uruguai, próximo a famosa Ponte da Amizade. Fomos recebidos cordialmente e logo iniciamos a prosa, regada com saboroso chimarrão fronteiriço. Já era noite e a conversa se estendia sobre os causos das salamancas encantadas. Colmar nos ofereceu seu recente livro chamado Romanceiro da Salamanca, com belíssimos poemas dramáticos. Foi inevitável a cessão de autógrafos. Gentilmente convidou-nos a passar aquela noite em sua estância e antes de sairmos, solicitou ao capataz, por telefone, que improvisasse um assado para nossa chegada. Providência das mais oportunas.

RETIROÀs 22 horas rumávamos todos pela BR 472, na direção de Itaqui. Nosso guia, muito cauteloso, orientava sobre os buracos na pista enquanto nos contava sobre suas façanhas e o surgimento da famosa Califórnia da Canção Nativa, do qual era o criador. Acessamos uma estrada vicinal, de chão batido, próximo ao Rio Touro Passo, afluente do Rio Uruguai. Apesar das boas condições da estrada de terra, a travessia teve de ser lenta, pois havia chovido muito e a lama tomava conta do caminho. Na escuridão ao redor, conseguíamos notar os campos de arroz transbordando água. Já na entrada da estância vimos o nome RETIRO, com uma curiosa cruz suástica, logo abaixo. As inscrições, vazadas, estavam dispostas em uma grossa prancha de madeira, em forma de couro de boi e suspensa por correntes a um caibro da porteira. Parecia ser muito antiga por apresentar liquens coloridos em toda a superfície. Inevitável a comparação com a insígnia da campanha militar nazista. Prontamente o Sr. Colmar nos esclareceu, como já era de seu costume fazer, pois todos os visitantes questionavam aquele destacado e difamado símbolo. A explicação foi simples. Seu avô, primeiro proprietário da estância, tinha que definir o sinal para marcar o gado e tendo em mãos uma antiga lata de biscoitos escolheu a pequena cruz que ilustrava a embalagem. Colmar disse ser uma cruz hindu, muito antiga e que simboliza a fortuna e a riqueza. Acrescentaremos aqui nossa versão, para esta cruz que tem suas pontas viradas para trás em ângulos retos. Somente a título de curiosidade.

Este símbolo muito popular é conhecido por diversos nomes, devido a sua dispersão por todo o mundo antigo. Veja o exemplo da lata de biscoitos! A palavra suástica vem do sânscrito, e poderia ser traduzida por “está tudo bem”, ou “está bem” ou “assim seja”, implicando aceitação e indicando vida, movimento, prazer, felicidade e boa sorte. Também é conhecida como Cruz Gamada. As teorias e especulações quanto a origem da suástica são conflitantes e exigira uma pesquisa para acompanhar todo o seu percurso histórico. Ficamos por aqui e finalizamos esse assunto desejando a Estância do RETIRO e aos companheiros que lá vivem muita boa sorte, saúde e vida longa. Tudo que esse símbolo representa. Salve a Cruz Gamada!

Naquela primeira noite na estância aproveitamos para nos interarmos das informações que o amigo Colmar pode nos repassar. Ouvimos poemas dramáticos e causos sobre as salamancas. Na sala de estar, enfeitando as estantes, era possível ver diversos troféus de festivais de música e prêmios de eventos tradicionalistas. Na mesa de centro uma bandeja com pedras, de boleadeiras, entalhadas pelas mãos dos índios Charruas. Colmar nos apresentou músicas da trilha sonora de uma companhia Argentina, para uma obra de balé clássico, que ele havia colaborado no processo de pesquisa e produção, no ano de 2000. Trabalho de fino trato! Logo mais, um belo churrasco de ovelha, um banho e o sono dos justos.

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