5º dia - 15 DE FEVEREIRO DE 2004 As 11 horas estávamos avistando o Cerro no horizonte. Paramos algumas vezes para rápidos registros fotográficos e Ao chegarmos fomos recebidos, pelo caseiro e sua família, informados da direção da gruta e da existência de uma boa vertente de água potável no local. Sem perda de tempo cruzamos cercas e percorremos uma boa extensão do lendário Cerro do Jarau. (502 FOTOS DO LOCAL)Conforme informações, dos arquivos do Centro Cultural de Quaraí, cedidos pelo já citado CTG Sentinela do Jarau, a origem do nome JARAU provém dos primeiros habitantes do município, os índios Jaros. Estes falavam a língua Chaná, também falada por Charruas, Guenoas e Minuanos, que depois adotaram o guarani. Jarau significa “fogo da noite”. Segundo nossos informantes locais a tribo dos Jaros era muito temida por seus ataques repentinos e violentos. Utilizavam muito bem a geografia do terreno para observar os inimigos ao longe e para a preparação das emboscadas. Acredita-se que foram dizimados por outras tribos inimigas, mais numerosas e por brancos colonizadores. (503 DESENHO DO MAPA) Obtivemos várias informações sobre os aspectos geológicos e geomorfológicos do Cerro do Jarau, com base nos arquivos do Centro Cultural do município de Quaraí. Alguns aspectos, mais importantes, indicam que a formação rochosa é proveniente do magma , oriundo do centro da terra, que atravessou rochas pré existentes, sob alta pressão e temperatura, sendo denominadas vulgarmente de rochas vulcânicas e basálticas. O conjunto do Cerro é formado por 11 elevações topográficas, tendo ao norte, as porções de maior envergadura, chegando a 308 metros o ponto culminante. Segundo dados fornecidos por uma equipe de geólogos de Porto Alegre, no ano de 1984/85, a datação do Cerro é de 135 milhões de anos, período da era Mesosóica, dos répteis gigantes. Especula-se ainda a possibilidade da existência de petróleo na região em virtude das substâncias pirobetuminosas encontradas no local. No que diz respeito aos aspectos históricos, é sabido que o truculento Brigadeiro Bento Manuel Ribeiro (1783-1855), um sorocabano, vindo, em torno de 1800, para o Rio Grande do Sul, para combater na campanha de anexação da Banda Oriental, comprou, de diversos concessionários, 14 léguas quadradas, aproximadamente 60 Km quadrados, sobre margem direita do rio Quaraí, construindo ao pé do Cerro do Jarau a primeira estância, próximo ao cerro mais alto. Existem vestígios das ruínas da casa e de uma grande mangueira de pedra, onde pesquisadores encontraram diversos objetos indígenas, datados de 4.500 a 10.000 anos. (504 FOTOS PANORÂMICAS E DETALHES) Alega-se ao brigadeiro Bento Manuel a façanha de ter penetrado nas furnas encantadas do cerro para realizar um pacto com a bruxa Teiniaguá e de lá sair com o “corpo fechado”. Pelo menos é o que se conta com relação à lança de ébano que estaria embruxada e que posteriormente deu de presente ao General Osório, que conduziu essa lança nas campanhas do Paraguai. Durante nossa caminhada no Cerro, percebemos um jogo de vistas muito enganoso, próprio da mística popular que cerca o local. Quando estamos relativamente distantes dos cerros, eles nos parecem próximos e facilmente alcançáveis, porém, ao iniciarmos uma aproximação, nota-se a verdadeira distância e dificuldade do terreno, gerando inclusive, uma desorientação espacial. Várias vezes avistamos buracos, grandes rochas, árvores e outros pontos de referência, que simplesmente “sumiam” ou “trocavam de lugar”. Essa dificuldade tomou tempo no reconhecimento do terreno e nos causou relativo cansaço em vista do horário do meio-dia e do forte calor. Tratamos de procurar a gruta mística do conto simoniano. O nosso guia, o Sr. Enio, indicava as possíveis localizações e prontamente nos espalhávamos para conferir as tocas e buracos na pedra. Após uma hora e meia de caminhada decidimos retornar, pois existia um único horário de ônibus para o retorno do Sr. Enio. Retornamos 6 Km até a estrada, onde o Sr Enio tomaria o ônibus até Uruguaiana. Após calorosa despedida, troca de contatos e agradecimentos, retornamos ao Cerro. Montamos uma base na estância onde foi possível fazer um rápido almoço e preparar nosso equipamento e a tralha para acampar. Partimos para passar a noite no mato e numa rápida caminhada já alcançávamos uma clareira, entre dois cerros próximos, própria para pernoitar, pois existiam indícios de fogueira e localizava-se próximo a uma fonte. Num reconhecimento rápido, nas proximidades da clareira, constatamos a existência de uma carcaça de vaca, já descarnada pelos urubus, muito mau cheirosa e que poderia nos causar certo incomodo durante nossa permanência. Dito e feito. Conforme o vento as narinas reclamavam. Como alternativa acendemos um fogo para aquecer a água do mate e espantar o perfume da carniça. Anteriormente, na primeira investida, em busca da gruta, foi possível ver de longe a boca de uma gruta, no cerro oposto onde nos encontrávamos. Como primeiro objetivo a ser explorado naquela tarde, decidimos verificar de perto o buraco na parede do cerro. O deslocamento, a pé, feito no terreno, não era dos mais fáceis. Pedras soltas e principalmente muitos espinhos, reconhecidos como o temível cipó Unha de Gato e a Japecanga. Ambos muito afiados e de arranhões doloridos. Trepando pelas pedras, até o paredão, encontramos a mítica Salamanca do Cerro do Jarau. Depois de uma saudação simbólica, Laus' Sus-Cris'! a moda de Blau Nunes, reconhecemos por comparação com as outras furnas, de menor tamanho, que aquela era provavelmente a furna inspiradora do imaginário simoniano. Era uma passagem no grande paredão do cerro. A entrada dava a impressão de ter sido aberta por uma grande força que “lascou”a superfície da rocha. A altura da boca é de aproximadamente 3,5 metros e a largura de 5 metros. Logo na frente da entrada, na parte interna, existe uma parede de rocha, quase totalmente vertical, onde é possível ver uma desrespeitosa pichação feita em tinta a óleo azul. Na base, um pequeno acúmulo de água, usada pelos poucos morcegos que habitam o interior da gruta. Na lateral direita, no interior, existe uma pequena abertura de no máximo 60 cm, onde é possível uma pessoa passar de lado com dificuldade. No interior da passagem existe uma pequena câmara totalmente isolada da luz e que abrigava um ninho de morcegos. Com ajuda de lanternas avaliamos como entrar pela abertura e as necessidades para investir com segurança no local. Pelo motivo da falta de luminosidade e agitação dos morcegos, decidimos retornar no dia seguinte, devidamente preparados para a empreitada. No retorno ao acampamento notamos a presença de um Graxaim, conhecido na fronteira como Zorro. É um canídeo comum no Estado, freqüentemente visto durante a noite, mas também observado nos finais de tarde. É considerado, pelos agricultores e pecuaristas, como animal nocivo, por atacar galinhas, patos e cordeiros. Come de tudo e vive em tocas ou ocos de árvores. Ao cair da noite preparamos uma refeição, a base de arroz e lingüiça, que despertou o apetite do Graxaim. Várias vezes foi possível escutar os curtos e agudos latidos, muito próximo do acampamento. Aproveitamos a noite para ler alguns trechos do conto A Salamanca do Jarau. Principalmente os trechos que iindicavam a presença de Blau Nunes no cerro. Procurando relações literárias com os indícios e as observações feitas no local. Depis do jantar recitamos alguns poemas dramáticos, de autoria de Colmar Duarte, do livro O Romanceiro da Salamanca e programamos nosso roteiro para o dia seguinte. Dormimos com os vaga-lumes enfeitando o céu estrelado. (505 FOTO DO LIVRO)
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