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6º dia - 16 DE FEVEREIRO DE 2004
Na manhã desta segunda-feira, dia 16 de fevereiro, preparamos o café nosso material para a entrada na gruta. A expectativa era grande. Nos munimos de câmeras, lanternas e roupas de manga comprida. Vestimos capuzes e luvas improvisadas para evitar o contato com os dejetos dos morcegos, metemos os peitos e passamos. A adrenalina correu nas veias no momento de passar pela pequena abertura e observar, no pequeno espaço interno, várias carcaças de morcegos mortos. “Alma forte, coração sereno....” No misterioso interior não se via nenhuma possibilidade de seguir adiante. Conforme o conto: -“Blau Nunes andou mais, num corredor de umas braças; mais, ainda; sete corredores nasciam deste. Blau Nunes foi andando. Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu.” Nossa investida, infelizmente, não rendeu tanto quanto a de Blau ou da imaginação do genial autor. A única possibilidade, de avançarmos, era no teto, num pequeno buraco, ocupado por alguns morcegos assustados e que provavelmente passaria mal e mal o corpo e uma criança. Não tínhamos condições de subir até a fenda para averiguar. Nos contentamos com o registro geral da gruta e algumas divagações sobre as descrições contidas no conto simoniano.

Uma das interessantes interpretações do conto, feita com total liberdade poética e baseada no imaginário do autor João Simões Lopes Neto, levando em conta que passou no local e entrou na gruta, é que o texto proferido pela princesa moura encantada, que se diz ser; - “a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo...”. Consideramos essa referência simoniana uma associação muito clara com o formato e a disposição interna das paredes da gruta, que lembra uma fina casca de rocha, que estende-se vários metros acima da cabeça de quem observa. Isto também é possível de ver em pedras menores. Como se pudéssemos descascar a rocha, reafirmando o termo “casca do mundo”.

Prosseguimos sem demora, pois ainda tínhamos muitas paisagens para percorrer e lugares a conhecer nos vários cerros que formam o Jarau. Rapidamente nos livramos dos apetrechos de exploração da caverna e subimos até o topo do cerro. Do alto era possível ter uma vista panorâmica belíssima. Com a ajuda de um binóculo conseguíamos ver a imensa Coxilha de Santana e a cidade de Quaraí, a 20 Km de distância. Segundo o mapa que levávamos, tínhamos ao sul o Uruguai e ao oeste a Argentina. Depois de registros de vídeo e foto descemos até a estância para pegar mantimentos e preparar o almoço.

Após a refeição nos dirigimos para outro cerro, mais ao sul. As pedras, pequenas e redondas, espalhadas no pé dos cerros, davam a impressão que um vulcão havia explodido e lançado aqueles fragmentos, soltos no campo. Algumas pedras isoladas, provavelmente de várias toneladas, davam a impressão de terem rolado cerro abaixo.

Exploramos algumas formações menores, onde a acomodação das imensas pedras criavam estranhas grutas, com passagens internas. No caminho cruzamos por imensas cercas de pedra, muito antigas, que subiam os cerros e que serviam para demarcar as propriedades dos diferentes estancieiros. Possivelmente feitas pelas mãos de escravos, considerando o tamanho e o esforço que necessitou para serem erguidas.

(601 FOTOS DO LOCAL)

Cruzamos entre os cerros até a formação mais alta e iniciamos a íngreme subida. Depois de 40 minutos estávamos no topo do cerro mais alto. Como companhia tínhamos um bando de urubus-de-cabeça preta e urubus de cabeça vermelha, com aproximadamente 40 indivíduos. Aproveitavam as corrente de ar quente para pairar sobre o topo do morro. Lá no alto, escondidos entre as pedras, foi possível constatar a presença de ninhos vazios. A beleza da imensidão do pampa se completava com o vôo elegante destas aves.

Iniciamos o retorno antes do poente devido ao alto grau de dificuldade da descida. No trecho de volta era sensivelmente perceptível um estrondo que parecia vir de dentro da terra. Tínhamos a informação de que os moradores locais sentiam a terra tremer e ouviam estrondos muito fortes no cerro. O céu estava levemente encoberto, não parecia indicar chuva, portanto, não poderiam ser trovoadas. Continuamos. Próximo ao acampamento, um batedor de nossa equipe foi verificar a existência de uma grande formação de pedras. Era muito parecida com uma imensa gruta e a curiosidade não deixou de se fazer presente, já que poderia haver outra salamanca escondida. O batedor foi sozinho enquanto os demais integrantes aguardavam numa coxilha próxima. A subida até a gruta era muito íngreme e obstruída pela vegetação. Quase na boca da toca, subindo pelo único caminho disponível, uma grande parede de pedra lisa, o batedor perde firmeza no pé de apoio e se vê obrigado a segurar o peso do corpo na vegetação próxima. Péssima escolha. A mão encontrou apenas um cipó Unha de Gato. Naquela fração de segundo um profundo corte na mão impedia o acesso até a misteriosa gruta. Retornamos rapidamente para tomar as devidas providências de primeiros-socorros do ferimento. Decidimos deixar para trás a dúvida dessa gruta inexplorada que certamente é motivo para uma posterior visita. Neste mesmo momento é que avistamos ao longe, sobre a coxilha, entre os cerros, a formação da chuva, ao sul, na direção da fronteira com o Uruguai. Linda imagem de nuvens escuras com uma nesga de céu vermelho. Fazendo justiça ao nome JARAU, “fogo do céu”.

Continuavam os estrondos que realmente davam a impressão de fazer todo o cerro tremer. Fato que associamos com o eco que reverberava nos pequenos vales formados entre os cerros. A noite não tardava cair e, por prudência, decidimos levantar acampamento. Tínhamos um integrante ferido e diversos arroios para vencer com nosso inadequado automóvel. Retornamos até a estância e ficamos em prontidão para sair a qualquer momento. Após algumas horas mateando com os peões notamos que a chuva não cairia tão breve e fomos convidados a pernoitar ali. Nesta oportunidade foi possível contar ao peão e seu filho a história dA Salamanca do Jarau. História que curiosamente eles não conheciam.

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