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Do pampa agreste ao surgimento do autêntico gaúcho
Inevitavelmente, os Povos das Missões foram expulsos do Rio Grande do Sul pelos Bandeirantes e todo o gado se esparramou, tornando-se tão selvagem como as disputas de território que se seguiram entre as coroas de Portugal e Espanha. Nesta época foi fundamental o trabalho do negro escravo traficado da África para o Brasil, que impulsionou a economia das charqueadas. O índio, que era considerado improdutivo e acostumado com a vida livre, enfraquecia e morria precocemente sob o açoite dos brancos. Neste panorama, imposto pela força bruta, todas as raças se adaptaram e naturalmente se miscigenaram. Dessa união entre europeus e índios surgiram as primeiras influências do povo gaúcho. Esses corajosos sobreviventes aprenderam a ser andarilhos que não se apegavam ao trabalho nem à propriedade, por isso eram chamados de vagabundos, ladrões e aventureiros pelos colonizadores. Acostumados com a vida errante, posteriormente criaram raízes, tornando-se colonos e agricultores. Foi então que o resto do Brasil começou a conhecer o gaúcho, um povo que vivia nas coxilhas sem fim e sem fronteiras definidas. Mas no decorrer do tempo esse gaúcho passou por um processo de têmpera, baseada na liberdade e no jeito marginal de levar a vida, até ser lentamente deformado e caricaturizado pelo mesmo colonizador branco. No baixar da poeira, já no período chamado de idade do couro, onde se vislumbravam as estâncias, as cidades e as cercas, próprias dos charqueadores, rios de tinta começaram a correr sobre as folhas de papel nas escrivaninhas dos intelectuais da época. Muitos destes ilustres estancieiros do saber tentavam, enfaticamente, registrar a história do homem do Rio Grande do Sul. Na poesia, na música ou na literatura lia-se sobre o autêntico gaúcho. A grande propaganda dessa gente do sul se deu através da literatura, impregnada de termos e citações próprias do campeiro e cheias de elementos simbólicos. Durante o processo desse refinamento literário, surgiram múltiplas variantes, eruditas e populares, até se firmar numa autêntica essência poética. João Simões Lopes Neto: um escritor de obras de rico efeito e ficção Com autenticidade, próprio de um escritor de talento, JSLN trouxe a permanência do gaúcho. Não como inventor da poesia, mas como matéria de seu contexto e história. Nos seus contos regionais falou da condição do negro, em “O Negro Bonifácio” e “O Negrinho do Pastoreio”. Surgiu também de sua mão os “Contos Gauchescos” e “Lendas do Sul”, com verdades ainda não ditas nas várias páginas que escrevia diariamente. São “livrinhos” repletos de cores, imagens, conceitos e ritmos. No fundo de seus contos sempre há um sentido moral, um ensinamento ou uma boa intenção. A Salamanca do Jarau: sua última e grande obra É na edição de “Lendas do Sul” (Livraria Universal, Pelotas) que se revela o grande segredo sob aparência de lenda, assombrações e mistérios. Na evolução artística de seus textos surgiu o protagonista, um dos personagens mais marcantes de seus contos: o herói Blau Nunes. É o gaúcho pobre, o tropeiro, o peão de estância, o índio humilde que traz consigo a identificação profunda com o espírito dos pagos, a tal ponto que o próprio autor, pelotense, culto e de família abastada, se apaga na sombra do vaqueano. O desenvolvimento dessa versão é de extrema complexidade e nota-se que quase nada resta da matriz da lenda original, a qual conta às angústias de um sacristão da cidade de São Tomé que é seduzido, enfeitiçado e iniciado nas artes mágicas pelos encantos de uma princesa moura, vinda das histórias da Península Ibérica e transformada em Teiniaguá pela mão do próprio diabo indígena, Anhangá-Pitã. Essas superstições platinas, espanholas e portuguesas fazem parte do discurso de Blau Nunes, que reproduz essa história, que foi contada, por sua avó charrua, e que tem origem na cidade espanhola de Salamanca, local de furnas encantadas. O resgate de JSLN dá um fôlego novo a essa crendice popular, que inevitavelmente teria sido perdida. É nesse aproveitamento da tradição oral riograndense, ameaçada de extinção, somada ao imaginário da fronteira e pesquisas eruditas que resultou a estrutura e o estilo simoniano. Em “A Salamanca do Jarau” o autor relata com imensa criatividade a saga do gaúcho Blau Nunes, que percorre e enfrenta sete provas na salamanca mítica, situada pelo autor, na Coxilha Geral de Santana, sobre a fronteira com o Uruguai, no Cerro do Jarau, ao norte do município de Quaraí/RS. Curiosamente era proprietário desse local o controverso general farroupilha Bento Manuel Ribeiro que, segundo a crença popular, teria entrado no Cerro do Jarau e feito um pacto com a Teiniaguá, saindo de lá com “o corpo fechado”. “A Salamanca do Jarau”: a montagem em teatro de sombras Partindo desta mesma linha de pensamento a “nova gente do teatro gaúcho” procura buscar uma linguagem, à altura da poesia simoniana, baseada na principal alegoria, norteadora do teatro de sombras ocidental: o mito da caverna de Platão. No caminho da pesquisa e da experimentação do gênero milenar do teatro de sombras, somado à dinâmica cinematográfica moderna, é que se fundamentam os princípios dessa montagem, possibilitando uma experiência singular, quase metafísica, com esta arte esquecida no tempo e que tanto inspira o espírito imaginário do público. Uma “nova linguagem”, autenticamente gaúcha e ao estilo simoniano, capaz de contar ao povo algo sobre sua própria origem mitológica. É desta forma que o gaúcho pode ser comparado com a própria metalinguagem da arte teatral. Ambos não são puros, mas sim, o resultado da mistura do sagrado e do profano, do bem e do mal, da luz e da sombra, do concreto e do etéreo. Essa ambigüidade, em conflito permanente, é que nos emociona na arte e na vida. Essa é a arte de ser gaúcho. O autêntico gaúcho é esse herdeiro da mistura de raças e culturas, fusão de tradições, com um estilo inconfundível. Sem sombra de dúvida, “A Salamanca do Jarau” é todo esse manancial de segredos e símbolos para a contemplação filosófica do público porto-alegrense e mais do que isso, riograndense. No decorrer do exercício experimental deste espetáculo, artistas e público exploram, junto com o personagem Blau Nunes, um caminho artístico para uma identidade genuinamente gaúcha. Blau é índio, mas também é português cristão e mouro herege. Comparativamente, é como o espetáculo teatral, que é ação, mas também é imagem, som, luz, sombra e sonho. No fundo, essa mistura, revela um grande ensinamento de vida. Ou quem sabe, bem mais do que isso, um pensamento profundo do próprio autor JOÃO SIMÕES LOPES NETO e de todo o artista gaúcho: ser verdadeiramente autêntico. Como é e sempre será. Alexandre Fávero |
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